Salazar para francês ler

A estratégia salazarista passou por uma dupla postura quanto ao debate e à comunicação política. No relacionamento da ditadura com os portugueses, a recusa de justificação dos seus actos, opções e silêncios perante os governados e oprimidos, o silêncio sobre a ideologia subjacente – não passível de discussão. No plano externo, aí sim, projectava-se a ambição do estadista, para ombrear com os seus pares na orientação de direita social-nacionalista.Assim, algumas das linhas mestras da acção de Salazar – que privilegiava sobre o pensamento, a explicitação ideológica – chegaram a Portugal como ecos do seu “prestígio” além-fronteiras, da propaganda que a máquina por ele patrocinada alimentava, como forma de legitimação de uma política que o seu povo, menor por condição e definição, não estava preparado para alcançar. Para além de que um predestinado, roçando a mística, a concepção e prática religiosa, não podia descer a uma justificação pública, terrena – que até podia levar à discussão das suas virtudes pelo povo.De entrevistas a textos elaborados pela “inteligência” do regime – quase sempre pela mão de António Ferro –, aí reside o segredo dessa relação intermediada pelo estrangeiro como fonte de autenticação da bondade de uma política alicerçada desde o início na ditadura.São célebres as conversas com jornalistas que eram trazidos a Lisboa para constatarem o trabalho feito por Salazar, numa altura em que ideólogos e políticos de direita ganhavam galões por essa Europa – a vizinha Espanha primava pela proximidade, mas na Itália e na Alemanha já ressoavam os passos do nazismo e do fascismo.Não admira, pois, que um desses textos preparado para publicação numa revista da direita francesa contenha a recusa de coincidências entre a linha salazarista e os conceitos e práticas de Mussolini e Hitler. Então e Salazar não sabia ele próprio por onde queria ir, de que precisavam os portugueses? Precisaria ele de falar com os anjos para a inspiração superior se ele falava directamente com Deus? Pelo contrário, como resulta implícito dos conselhos que dá a quem queira segui-lo na tarefa de “erigir uma nação sobre escombros”.Aí está o trabalho – estruturado por Ferro – , que resultou na reflexão-justificação-balanço para a Action Française, de Charles Maurras, mais tarde julgado e condenado a prisão perpétua por colaboracionismo com o nazismo, e que Salazar contestou (“gesto raro, muito raro”, assinala o prefaciador português, António José Ferreira).Como adenda, excertos (manuscritos) do discurso Grandes Certezas, feito em Braga a 28 de Maio de 1936, na comemoração do golpe de Estado que o levou ao poder. Que faça bom proveito, e dê boas lições.
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António de Oliveira Salazar
Como se reergue um Estado
(Prefácio de António José Ferreira)
Esfera do Caos, 16,40€

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(C) Vieira da Silva

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