Manápulas na informação


Muito se tem escrito sobre os mais variados ângulos teóricos da manipulação – de ideias, de informação, do saber – a todos os níveis, nos mais diversos meios, em todas as situações. Mas a prática continua a surpreender, umas vezes pelas inovações introduzidas, outras pelo destemor e sem vergonha. É assim, talvez, desde sempre, e a tendência aparente é de agravamento.
Paul Moreira tem para contar, ele que na sua actividade jornalística, imprensa escrita, rádio e televisão, é testemunha de situações muitas vezes escandalosas. Porque (quase) sempre os procedimentos de censura, intoxicação, mentira pura, são atentados contra alguém (os povos, geralmente, porque se trata de conflitos), provocam mortes e prejuízos para as vítimas (e lucros para os promotores), e impedem que as democracias funcionem.
O autor começa o seu livro pela manápula interna, ele que a viveu mais de uma vez: logo como colaborador ele sentiu de perto o despedimento de um atrevido autor de um programa que resolveu afrontar o recente comprador do canal televisivo em que trabalhava: o construtor civil, também feito empresário dos média, nem hesitou. Mas, mais recentemente, já em 2006, foi a vez de um outro programa, desta vez no Canal+: ao sétimo ano foi extinto, a pretexto de maior “legibilidade”. E o incómodo 90 minutes foi-se.
Depois… há o lá fora. Desde as multinacionais farmacêuticas e o silêncio que tentam (e conseguem…) impor sobre as ameaças do que vendem, ao recentemente eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a experiência de controlo da imagem. No que respeita ao Iraque, Paul Moreira começa por lembrar o caso do bombardeamento de um casamento, em 2004, que o general porta-voz oficial do exército americano no Iraque anunciou como sendo um agrupamento de terroristas.
Ou a violência na Costa do Marfim, quando “o exército francês disparou balas reais sobre manifestantes civis”. Lembra Moreira: “Acontece uma vez, talvez duas, na vida de um jornalista: possuir, pousada sobre a sua secretária, a prova de que o poder mente. Contemplar as versões oficiais que se empilham na televisão e saber que elas são falsas.” Aconteceu-lhe em Abidjan.
E, já agora, este jornalista que leva duas décadas e meia de actividade, não desconhecerá o futuro que já lhe terá sido ditado: não encontrará jamais, nos meios de comunicação “normais”, local onde possa viver essas situações. Quanto mais denunciá-las…Se é ele próprio quem evoca o suicídio de um jornalista americano, após uma investigação, cercado pelo Estado e uma rede criminosa – até não ter meios para viver. Sequer sobreviver.
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Paul Moreira
As novas censuras – Nos bastidores da manipulação da informação
Publicações Europa-América, 19,51€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.