O cadáver que (ainda) mexe


A avaliar põe este ensaio “despretensioso e reflexivo de horas nocturnas”, a “constelação cultural e civilizacional por que emergiu a realidade histórica designada por ‘Portugal’ (…) atingiu o seu limite de esgotamento”.
E porquê? Há no livro razões várias, no escalpelo de uma espécie de esquizofrenia do colectivo nacional, desde o dito pouco importante “decadentismo político”, uma constante desde D. João III, à tecnocracia europeia, o topo de um fenómeno de “aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade”. Agora, somou-se-lhe a “rapidíssima submersão social numa tecnocracia científica anónima que nivela as nações”.
Miguel Real é, pois, anti-europeísta, e contra este estado de coisas por que passamos. Para ele, “um bom governo seria hoje aquele que por múltiplos meios apostasse em fazer de cada português, não um robot técnico de fato cinzento, camisa azul e gravata verde ou amarela” mas “um homem culto, consciente do seu lugar na sociedade e na história”.
Por isso defende não um choque tecnológico (experiência já feita pelo pombalismo, pelo fontismo e pelo cavaquismo) mas um “choque cultural, elevando cada cidadão a um exigente patamar de conhecimento humanista e cívico”. Isto é, “primeiro, a cultura, o espírito, o sentido de transcendência, depois, por inevitável arrasto de exigência cívica, o progresso tecnológico”. Será uma questão de metodologia?
Depois, vigorosamente, o autor explica-se com um levantamento de Portugal e dos portugueses ao longo da História. Enfim, fala-nos dos nossos traumas históricos. Até onde leva uma destas sessões de psicanálise, é questão de cada um – porque o objecto e sujeito da autópsia são, afinal, todos e cada um de nós.
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Miguel Real
A Morte de Portugal
C
ampo das Letras, Outubro de 2007

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(C) Vieira da Silva

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