Pensar a globalização


A globalização é, hoje, uma palavra incontornável – seja para nos pronunciarmos a seu favor ou contra. O que não causa admiração, pois de uma forma ou outra a vida de (quase) todas as pessoas é influenciada por ela.
Para os que sofrem directamente os seus efeitos – como o desemprego provocado pela deslocalização de unidades de produção – a globalização é mais do que uma ameaça, é um fenómeno que desfaz, pelo menos momentaneamente, o seu projecto de vida.
Para as grandes empresas multinacionais, que deslocam a produção para qualquer parte do mundo onde a mão-de-obra se já mais barata, as legislações mais permissivas e as regras mais flexíveis, a globalização é, sem dúvida, o processo evolutivo natural do capitalismo.
Também não é novidade um livro sobre a globalização. Muito se tem escrito (nem sempre com qualidade), muitas reflexões têm sido feitas (não todas com a profundidade necessária), muito se tem opinado (de forma ideologicamente muito vincada). Apesar disso, ou talvez por isso, a globalização continua ainda a ser um conceito de enorme ambiguidade, associado à interdependência da economia, aos mercados financeiros, às tecnologias de telecomunicações, mas esquecendo-se muitas das suas outras conexões, como a soberania dos Estados-Nação tal como nos habituámos pensá-la.
Entre a babel de obras que inundam o mercado, vale a pena determo-nos em “A globalização em “Análise”: Geoeconomia e estratégia dos actores”, de Jacques Fontanel.
O autor, professor de Ciência Económicas na Universidade Pierre Mendes France, de Grenoble, e especialista em questões de geoeconomia, apresenta neste livro uma reflexão profunda sobre a globalização, distinguindo as dimensões empíricas, teóricas e ideológicas.
Como refere, o conceito de globalização é recente, mas algumas das suas expressões não o são. Ao longo de mais de 600 páginas, Jacques Fontanel traça um amplo quadro do que está em causa quando se fala de globalização.
«A globalização define a integração das actividades produtivas e comerciais num sistema de mercado global, no contexto de uma multiplicidade de relações e interconexões entre os Estados e as sociedades que formam o sistema mundial. Num mundo dominado pelas nações desde há pelo menos cinco séculos, o poder societal e as suas expressões encontram-se em plena mutação, no sentido do desenvolvimento dos bens públicos internacionais. Hoje, os Estados perderam a sua aura e parte do seu poder», escreve Jacques Fontanel logo na introdução.
O livro está dividido em três partes e uma conclusão – “As expressões empíricas e ideológicas da globalização”, “Os grandes actores da mundialização económica”, “Uma economia de mercado global ‘contestada’” e “O paradoxo da globalização: uma necessidade e uma ameaça”. Nelas são abordados temas como as características modernas da globalização; o trabalho, bem-estar e condições de vida; as justificações teóricas do comércio livre; o papel do Estado; o poder acrescido das multinacionais, ou os especuladores financeiros.
O capítulo dedicado ao trabalho, embora não sendo longo, é bastante interessante. Fontanel recorda que «o mercado de trabalho, modelado por várias décadas de coabitação ente a influência keynesiana e o liberalismo, parece ser hoje dominado pela influência do liberalismo e do pós-fordismo» (pág. 50), apresentando uma tabela comparativa do funcionamento do mercado de trabalho segundo as três teorias dominantes: liberal, pós-fordita e keynesiana.
Também a flexibilidade laboral, tão em moda, é abordada: «A flexibilidade do trabalho tende a reduzir a importância da tomada em consideração das contingências pessoais. Por outras palavras, a máquina funciona sem se importar com o bem-estar dos indivíduos, que têm de se adaptar» (pág. 55).
Para quem pretende um suporte teórico para reflectir sobre um dos fenómenos mais marcantes dos nossos dias, este é, sem dúvida, um livro a ler.
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Jacques Fontanel
A globalização em “Análise”: Geoeconomia e Estratégia dos Actores
Instituto Piaget, 36,75 €

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(C) Vieira da Silva

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