Uma trama policial entre muçulmanos

“À Procura de Nouf”, de Zoë Ferraris, é um romance estimulante, não tanto pela trama – nada de surpreendente no género policial –, mas pelo local escolhido para a acção: nada mais, nada menos do que a Arábia Saudita, mais concretamente o seio de uma conservadora comunidade muçulmana.
Tudo começa com o desaparecimento de Nouf, uma jovem filha de uma família muçulmana, rica e conservadora. Para encontrar a rapariga, a família contrata um amigo, Nayir, um muçulmano fiel e praticante que ganha a vida como guia no deserto. O corpo da moça acaba por ser encontrado por um grupo de beduínos, mas a família quer continuar a investigação, para perceber o que na realidade aconteceu.
O livro é um mergulho na sociedade muçulmana, com os seus códigos de conduta, tradições, leis morais e religiosas, onde o papel reservado às mulheres é incompreensível para os ocidentais.
Mas o mais interessante de “À Procura de Nouf” é o facto de a principal aliada de Nayir ser Katya, uma jovem mulher que trabalha no gabinete do médico legista e é noiva de um dos irmãos de Nouf. Num mundo vedado às mulheres, é impressionante assistir-se às dificuldades por que passa Katya: como investigar seja o que for de rosto coberto, sem poder falar com homens nem movimentar-se sozinha? E é o desenrolar da investigação nesse mundo claustrofóbico que constitui a mais-valia do livro, corroborada pelo final surpreendente. Verdadeiramente impressionante.
Zoë Ferraris construiu as suas personagens baseando-se na sua experiência pessoal, quando viveu um ano numa comunidade de Jeddah, na Arábia Saudita. Mestre em Belas-Artes da Columbia University e actualmente bolseira no departamento de Escrita da mesma universidade, a autora conquistou o primeiro prémio na categoria de Romance Policial na Santa Barbara Writer’s Conference precisamente com este “À Procura de Nouf”.
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Zoë Ferraris
À Procura de Nouf
Quidnovi, 19,95€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.