As pirâmides invertidas

O Egipto banalizou-se, dir-se-á que é fruto da sociedade de consumo. Fez-se férias obrigatórias, um olho no preço, o outro no passeio. É certo que esta opção já representa um virar de costas às costas-do-sol-certo a toda a hora. Mas vai para ali muita gente que já esqueceu tudo o que aprendeu, olha as pedras, sim senhor, mas não aproveita para voltar ao passado: ao de uma civilização única, o mistério, a História, o fascínio dos bancos de escola finalmente acessível.
Em época de férias, muitos aproveitarão, que nem sequer é dos destinos mais caros. Quem se der ao trabalho de fazer uma preparação prévia, então mais proveito tirará, mesmo que limitado aos percursos que integram o cruzeiro do Nilo-tudo-incluído – e sendo certo que é impraticável outro modo de descer o rio.
Bom, indo às leituras, claro que há o velho guia, os melhores e os outros, e há a oportunidade de ir um pouco mais além, reforçar o roteiro prático com um pouco de teoria. E é aí que entra este trabalho de um académico, “Estudos de Egiptologia”, com subtítulo um tanto rebarbativo para este efeito – “Temáticas e problemáticas”. De facto, trata-se e assume-se como um trabalho científico.
Não será caso para afastar o volume. É certo que está ali o dedo do universitário, mas nada que afaste alguém minimamente preparado e o impeça de voltar à história da “descoberta” desta parte da História Antiga. “A civilização faraónica produziu, deveras, magníficas obras e deixou testemunhos únicos, universalmente conhecidos, que continuam, ainda hoje, a exercer uma activa sedução sobre todos aqueles que com elas contactam”, lembra o autor.
Mas contrapõe as “inúmeras e adulteradoras concessões às dimensões do ‘enigma’, do ‘iniciático’, do ‘mágico’, do ‘misterioso’, da ‘maldição’. E há as “reconstituições fantasistas e imaginárias do passado dos homens do Nilo, valorizando-se, sobretudo, os traços formidáveis e herméticos da sua cultura”.
Ora, o egiptólogo propõe um olhar correcto, uma abordagem pelo lado certo, uma visão correspondente à real valia do objecto de estudo – e da viagem. E é assim que nos leva pela epopeia da decifração da escrita hieroglífica, mostra a importância – e porquê – da pedra de Roseta, recorda a “arqueologia egípcia do século XIX: da ‘caça ao tesouro’ à salvaguarda da herança faraónica”.
E mais, quando sem propósitos especulativos narra o mito do nome secreto de Ré, com Ísis a propor-se do seu potencial mágico para ascender na hierarquia mágico-divina. Ou, noutro capítulo, o mito da destruição divina da humanidade; ainda, os modelos de organização do panteão egípcio. Tudo sem concessões, o que pode parecer ameaçador.
Mas não é. Este académico não é chato.
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José das Candeias Sales
Estudos de Egiptologia – Temáticas e problemática
Livros Horizonte, 18,47€

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(C) Vieira da Silva

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