Quando a matilha se globalizou


Há anos para tudo, ao longo da História, mas alguns erguem-se alto no cúmulo dos feitos, das honras, dos êxitos, mesmo que em alguns casos os motivos de orgulho e exaltação não passem de vergonhas disfarçadas, usurpações desapiedadas, ambição desmedida. 1492 culminou o que foi a semente da Espanha actual, um ramalhete de acontecimentos que o alavancou para o livro das datas.
Mas foi mais, recorda James Reston Jr. em “Os cães de Deus – Colombo, a Inquisição e a derrota dos mouros”. Em 1492 coincidiram o termo dos 500 anos da Reconquista cristã e o fim de oito séculos de presença islâmica em território ibérico; a Inquisição espanhola pôde assumir o controlo da situação; renasceram as artes e a literatura espanholas; foram expulsos os judeus; avançou-se para o Novo Mundo; e Portugal e Espanha repartiram os despojos dessa, então, nova ordem mundial.
Na verdade, a união matrimonial de Isabel de Castela com Fernando de Aragão veio aplacar tempos difíceis para a estabilização dos dois reinos, bem como de todo o Norte da Península que havia muitas décadas mobilizava vontades no sentido de unificação de todas as coroas que regiam a par de Castela.
Castela e Aragão tinham nos tronos dois irmãos, no início do século XV, situação que não significava uma comunhão de pontos de vista políticos, mas permitia uma gestão descontraída. Enquanto João II de Castela casou com Isabel de Portugal, sobrinha-neta do Infante D. Henrique, o outro (também) João, de Aragão, uniu laços matrimoniais com uma dama castelhana de sangue real e judaico.
Do primeiro destes dois casamentos resultaram dois filhos, a mais velha baptizada Isabel, que viria a casar com Fernando, o filho único do casamento real em Aragão. Quase com a mesma idade, viriam a ser eles os protagonistas de tudo quanto levou Espanha por esses caminhos de glória e opróbrio, que tornaram 1492 um ano tão especial.
Foram as forças e fraquezas de dois reinos que se uniram sob a forma de matrimónio, os sucessos e erros do casal e dos seus conselheiros que levaram Espanha a um período que, tantos séculos depois, ainda se cruza com a História contemporânea. Neste reinado se dá o recobro da Inquisição, numa teia de horrores que podem desde logo ser resumidos num nome: Torquemada. É ele quem encabeça a perseguição dos Cães de Deus, mas é numerosa a matilha de dominicanos, e outros, que o apoia e quer ir mais longe.
James Reston Jr. investigou essa conjuntura que necessariamente determinaria os acontecimentos, as crenças, os jogos de interesses, jogaria com eles, aproveitaria. Disso é exemplo a morte de João II de Aragão, em 1479, que depositou nas mãos de seu filho, Fernando, e de Isabel, de Castela, um poder até aí apenas adivinhado.
Na prática, Castela e Aragão juntavam-se sob a forma de um império espanhol, dos Pirinéus a Gibraltar, para apenas falar nos campos da península. No imaginário, germinava a ideia de um desígnio divino que conduziria o poderoso par na reconquista cristã, tanto mais que se aproximava o final do século, momento de defrontar e vencer o Anticristo e as suas hostes compostas por judeus e muçulmanos.
E havia a expansão da Fé, à compita, sobretudo com Portugal, e a conquista de novas terras a toda a volta do mundo, e a posse das suas riquezas, a descoberta de novas matérias-primas, a exploração dos nativos. Cristóvão Colombo cai mesmo a propósito na corte castelhana, segundo Reston, depois de ter sido atraiçoado em Portugal com o beneplácito do Príncipe Perfeito. Estavam, pois, conjugados os astros para o zénite do fim de século.
Mas não é bem assim que Reston lê o fio da História. As páginas finais deste ensaio histórico remetem as personagens das décadas analisadas para lugares modestos, degradados, aquém do papel alguma vez para elas imaginado. Assim aconteceu com os torcionários da Inquisição, mas também com Isabel de Castela, que pediu para ser enterrada no Alhambra de Granada, num túmulo apenas assinalado por uma lápida; ou com Colombo, desvalido pela morte da rainha, a sua mais dedicada protectora, mas que foi salvo in extremis, pela piedade régia; D. Fernando recolheu aos bastidores, no final dos seus dias, como simples regente – muito embora tenha vindo a recusar a ideia da morte, quando ela se tornou inevitável, porque não tinha cumprido o seu destino: depois da reconquista de Granada, deveria recuperar Jerusalém para a Fé de Cristo.
O fio da História, ainda, quando o autor, logo no prólogo, recorda que “os autores dos crimes do 11 de Setembro invocaram as cruzadas cristãs dos séculos XI e XII”, e “os fanáticos islamitas que perpetraram o atroz atentado de Madrid tentaram em parte justificar a carnificina com a derrota dos antigos mouros”.
Mas, entende o autor, não pode ser recusada a avaliação de até que ponto estes ressentimentos históricos se encontram enraizados no mundo islâmico, por muito que consideremos os argumentos como rebuscados, ocos ou sinistros. “O conflito do século XV, entre os monarcas católicos de Espanha e os califas mouros de Granada, foi uma guerra santa entre a Cristandade e o Islão”, conclui.
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James Reston Jr.
Os cães de Deus – Colombo, a Inquisição e a derrota dos mouros
Bertrand Editora, 24,95€

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(C) Vieira da Silva

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