O Preço da Liberdade


Uma autobiografia dorida, assumida, mas escrita com as costas direitas.
Camelia Entekhabifard era ainda uma criança quando o Xá fugiu da então Pérsia (actual Irão) rumo ao exílio e se instalou o regime dos Yatolas com Khomeini.
Para uma miúda de família abastada, com ligações ao Xá, habituada a férias na Europa e coloridas roupas ocidentais de marca foi um choque.
Porque nos é muito difícil de imaginar um Estado religiosamente fanático, onde uma miúda que saia à rua de meias brancas, ou curtas, ou às cores... ou mesmo sem meias, seja por isso considerada criminosa. Crime, crime e pecado!
Sim porque as “Brigadas de Costumes” lá do sítio, estavam atentas, às meias, ao chador que deslizava com o vento e deixava ver uma impúdica madeixa de cabelos, à direcção de um olhar... qualquer coisa!
Crime, crime e pecado exigem punição e tanto se pode levar uma tareia logo ali no meio do bazar, como ser levada para interrogatório, num dos inúmeros “centros de apoio à fé” e tanto se pode voltar para casa, como ser presa e passados meses os familiares são surprendidos ao ouvir o nome da desaparecida, das tristes meias às riscas, no meio da lista de executados.
A loucura.
Mas claro, as meninas crescem e se lhes dá para ser políticamente activas é uma chatisse ainda muito maior que usar meias amarelas!
É a prisão garantida, com um inquisidor e tudo. Um inquisidor que não vemos, porque confessamos viradas para a parede, que fomos amantes de todos os homens que constam na nossa agenda de contactos. A melhor maneira de continuar viva é fazer o nosso inquisidor apaixonar-se por nós, pelas nossas mãos, enquanto inventamos uma dança de pecados rubros, capaz fazer corar e estremecer o Profeta.
Leiam.
A rapariga Camelia é esperta e safou-se bem.
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Camelia Entekhabifard
O Preço da Liberdade
Edições Asa, 12 €

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.