Salomão e seus pares diplomatas


O episódio histórico da embaixada papal manuelina enviada ao Papa, com o seu cortejo de luxo e riquezas num quadro faustoso em que avultava um elefante branco, entre outras espécies exóticas, parecia esquecido. Parecia, mas foi tirado do seu adormecimento no pó da História por um livro de ficção de José Saramago, numa arte de reinvenção pura sobre o que o autor decerto já conhecia, mas lhe foi lembrado na circunstância de uma sua viagem a Salzburgo.
Acontece, porém, que “A viagem do elefante” não se refere ao mesmo paquiderme destinado ao papa, antes acaba por acordar para a actualidade os ecos de outras missões diplomáticas zoófilas muito próximas no tempo, igualmente patrocinadas pela monarquia portuguesa, numa época de grandes rendimentos da expansão por longínquas paragens.
Trata-se de um período marcado por dificuldades, tanto internas como externas (em cada um dos países e também da própria Europa), que obrigavam os reis a refugiar-se sob o chapéu-de-chuva da Igreja, no caso do elefante branco enviado ao Papa, ou de um imperador como aconteceu com o espécime enviado por João III, de Portugal, para Viena de Áustria, ao cuidado do seu sobrinho Maximiliano, rei da Boémia e da Hungria e príncipe coroado do Sacro Império Romano-Germânico.
Uma potência, portanto, esta de Maximiliano, numa Europa que, apesar das ligações familiares (e também por isso...) entre as diversas casas reais, não dava grande tranquilidade a cada uma, per se, das coroas reinantes, tanto mais quanto eram conhecidas as ambições de cada um destes (grandes) protagonistas.
Era o caso do olhar espanhol sobre a faixa territorial portuguesa, numa disputa então ainda não resolvida, e que mais era aberta por uma monarquia, a de Lisboa, com grandes dificuldades de procriação eugénica e de sobrevivência dos descendentes de Manuel I. O filho João, o III, era conhecido na Corte espanhola por “El Bobo”, e a ele seguir-se-ia o desastre de Alcácer-Quibir com o filho Sebastião. O drama, que não tardou, da dominação filipina em Lisboa.
Do outro lado estava o Vaticano, com papas sucessivos, por vezes em exercícios pontifícios de curtos anos, já dilacerado também por profundas divisões que lhe ameaçavam o poder – também ali se falava de envenenamentos e de outras formas de fazer subir e descer os pontífices. Ainda assim, um rei como o português bem precisava da bênção papal para suporte de uma expansão feita na ponta da Cruz de Cristo, mas também da espada, e de um comércio vigoroso e quase sempre violento, desumano.
Está aqui o quadro do nascimento de uma diplomacia animal, paquidérmica, não totalmente elefantina porque uma das guarnições enviadas a Roma tinha como elemento exótico central um rinoceronte. Central porque as comitivas integravam coreografias zoológicas pontuadas pelas mais diversas espécies que era possível fazer embarcar nas caravelas, entre os carregamentos de ouro. Daí que brilhassem igualmente, na embaixada papal, uma onça, dois leopardos, papagaios, cães raros, etc..
A abordagem ficcional de Saramago acabou por ser reforçada, quase coincidindo no tempo, com uma outra, ensaística, histórica, sobre “Salomão, o elefante diplomata”, o tal que foi ofertado e enviado a Maximiliano. Mas a referência diplomática do título deste livro é justificada com o levantamento histórico indispensável, o seu enquadramento, a descrição. Como recordam os autores, Jorge Rodrigues e Tessaleno Devezas, “a história do elefante Salomão tem (...) um profundo significado que diz respeito a três aspectos da realidade europeia do século XVI: político, económico e científico”, não menosprezando a vertente simbólica.
É por isso, dizem, que “falar de Salomão obriga a contar as estórias dos outros paquidermes diplomatas do tempo de D. Manuel I e que ficaram célebres na história europeia”. E aqui vêm o tal elefante branco destinado ao Papa Leão X, e o rinoceronte que acabaria ligado a uma outra narrativa – da sua permanência e recuperação na ilha de If, ao largo de Marselha –, a par da história que mitifica o mesmo local, pelo agrilhoamento do Conde de Monte Cristo, na criação de Dumas.
A leitura paralela, ou próxima, das duas obras poderá propiciar um enriquecimento mútuo. Não é que a ficção de Saramago denote muitas preocupações com a fidelidade histórica; até, desde logo, ele justifica a escrita da obra com o visionamento de umas figuras, incluindo uma miniatura da Torre de Belém, em Salzburgo, bem perto de um restaurante chamado “O Elefante”. Perguntou e foi-lhe referido o conjunto como as marcas do itinerário de Salomão, na sua marcha de Lisboa a Valladolid, primeiro, e dali, depois, para Viena.
O ensaio histórico garante que Salomão, o “solimão” de Saramago – apodo por este recuperado da designação dada a um arqui-inimigo do Ocidente que andava a rondar Viena –, não chegou a cruzar os caminhos de Salzburgo. Ou lembra a aparente contradição sobre o destino da couraça do animal: “A Salomão cortaram-lhe as patas dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de verão”; o ensaio refere o envio da carcaça para um museu de Munique, a sua degradação no armazém, e por fim o despejo no lixo. Mas, entretanto, o burgomestre de Viena tinha aproveitado a ossatura da perna dianteira direita do animal, que estrutura uma cadeira hoje conservada no Convento Beneditino de Kremsmünster, na Áustria.
O que é indiferente, tanto num como noutro dos livros. A ficção de Saramago reinventa-nos o tempo e os modos do caso na dimensão da retórica literária, o ensaio coloca a questão em termos de investigação e análise histórica, política e económica, com as indispensáveis tintas geográficas.
Uma oportunidade única para uma espécie de leitura comparada.
Jorge Rodrigues e Tessaleno Devezas
Salomão, o elefante diplomata
Centro Atlântico, €13

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.