História em molho de especiarias

Veneza, Lisboa e Amesterdão foram as três cidades escolhidas por este historiador para chegar ao comércio das especiarias, o que lhe interessava. Foi uma aventura, como lhe chama no prefácio, que o levou a comer em casa de plantadores indianos de pimenta, ir à conversa com venezianos descendentes dos príncipes venezianos, aventureiros holandeses e marinheiros portugueses.
Aprendeu muito, no campo prático, como quando, por exemplo, foi levado aos campos e viu como se colhe e limpa o gengibre; entendeu as razões que levaram tanta gente, alguns especialistas, a dizerem e escreverem disparates. Pura preguiça, em muitos casos, desprezo pela história da comida e da culinária, noutros.
Antes de deslocar-se a qualquer das três cidades-charneira da investigação, o autor dedicou-se ao caso de St. Albans, uma antiga cidade inglesa de peregrinação, ao encontro da comida de um senhor feudal, um fantasma medieval. Um restaurante, em suma, em que pairam “aromas de especiarias doces e picantes”, especializado que é em comida balti, um tipo de comida sul-asiática originária do Baltistão, em tempos identificado com o Xangri-Lá.
Aqui, à mesa com uma travessa de guisado de borrego picante, o historiador sente como seria interessante sentar ali alguns académicos para que “compreendessem como é perfeitamente verosímil o relato medieval acerca do incrível uso de quase um quilo de especiarias num único banquete”.
E se eram caras, as especiarias! O autor recorda em abono do elevado preço as origens míticas do produto, mas sobretudo o dinheiro que se podia ganhar ao comprá-las num sítio e vendê-las noutro. “Sempre que a pimenta mudava de mãos, sempre que passava por uma alfândega ou era sujeita a impostos, o seu preço disparava”, escreve. E havia lucro substancial de um comerciante e dos próprios Estados.
Para se ter ideia dos lucros proporcionados por este comércio, basta considerar que os venezianos obtinham receitas líquidas confortáveis mas não exageradas de 40%, o que significava o dobro dos lucros dos banqueiros florentinos à época. Quanto aos portugueses, regista, podiam obter lucros de 150% ou mais na comercialização em Lisboa da pimenta que compravam no sul da Índia.
Não é preciso mais para entender os porquês da primeira grande globalização da História, e, eventualmente, compará-la com esta segunda, a nossa, com negócios de outras “pimentas” que igualmente multiplicam preços com a travessia dos oceanos.
Bom apetite e não abuse do picante, caro leitor!
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Michael Krondl
O sabor da conquista – ascensão e queda das três grandes cidades das especiarias
Edições 70, 19,90€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.