Quando Lisboa era boémia

José Machado Pais tem uma dupla vantagem: é um sociólogo de primeira água, tendo realizado investigações interessantíssimas e de claro interesse para a sociedade portuguesa – o estudo “Ganchos, Tachos e Biscates. Jovens, Trabalho e Futuro” é uma referência inultrapassável; mas é, também, um autor com um discurso muito fluido, o que torna as suas obras acessíveis e de leitura bastante atraente.
Características que estão mais uma vez presentes em “A Prostituição e a Lisboa Boémia – do século XIX a inícios do século XX”, agora em reedição, mais de duas décadas após a primeira publicação.
Trata-se, como o autor explica logo no prefácio, de um estudo sociológico que se desenvolve em torno de uma problemática concreta: «Em que medida os submundos de uma sociedade permitirão chegar a um melhor entendimento das suas estruturas?».
José Machado Pais procurava indícios do desenvolvimento do capitalismo em Portugal quando, no decurso da investigação, “tropeçou” numa Lisboa boémia como espaço socialmente fechado sobre si na primeira metade do século XIX, e que depois, no virar do século, se abre, esbatendo-se as fronteiras entre a Lisboa boémia e a Lisboa respeitável. Que forças sociais terão levado à mudança?, interroga-se. «A resposta achei-a no desenvolvimento das relações capitalistas que a partir do último quartel do século XIX se começaram a sentir no recôndito de alguns submundos da cidade de Lisboa», adianta, explicando que ao seguir uma concepção sociológica e histórica virada para o quotidiano de gente ordinária não desvalorizou as temporalidades de longa duração nem desconsiderou as estruturas sociais.
E é assim que, ao longo da obra que expõe a investigação, o leitor toma contacto com figuras como prostitutas, fadistas, proxenetas, chulos, marialvas, marinheiros, criadas e costureiras, numa miscelânea de tipos sociais que contribuem para o retrato de uma sociedade num determinado período temporal.
A administração política e legislativa do fenómeno da prostituição, a par (ou por causa) dos chamados imperativos morais, os valores sociais – quando a moda parisiense do passeio público obriga a regulamentar o acantonamento das mulheres públicas (as prostitutas) para que não sejam confundidas com as pudicas burguesas que deixam o recato do lar –, é um dos aspectos mais interessantes da investigação. Uma referência ainda para as condições sociais e económicas que transformam criadas e costureiras em prostitutas.
Igualmente relevante, o tecido social burguês que transporta, suporta e transforma o fado e o ambiente em que este se desenvolve de boémio em canção nacional, de entretenimento de vagabundos e degenerados a género tocado em salões chiques.
O que se passa, conclui o sociólogo, «é que as transformações que a sociedade portuguesa de finais do século XIX viveu se repercutem em todas as latitudes». No caso da prostituição, as formas economicamente produtivas estão relacionadas com os universos culturais, e com o desenvolvimento do capitalismo no país dá-se uma abertura do mundo da boémia aos meios que o circundam.
Mas como Machado Pais sublinha, diga-se, em abono da verdade, que este não foi um fenómeno específico de Portugal. «Por toda a Europa de finais do século XIX a prostituição começa a ser uma indústria perfeitamente organizada em que participam importantes banqueiros judeus e polacos».

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José Machado Pais
A Prostituição e a Lisboa Boémia – do século XIX a inícios do século XX
Ambar, 18,50€

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(C) Vieira da Silva

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