Nem só de CIA vivem os americanos

Os tenebrosos mundos das forças criadas e mantidas como sustentáculo de actividades sombrias, pantanosas e tantas vezes criminosas dos Estados têm sempre surpresas para oferecer-nos. É o caso desta organização, RAND, que o título da edição americana comporta e caiu na versão portuguesa, talvez por via dessa obscuridade que tornaria tudo menos aliciante e até chocante.
Pois este acrónimo existe, lá está ele numa rápida e superficial visita ao Google, plasmado num texto afinal esclarecedor publicado pela Wikipedia em versão inglesa (http://en.wikipedia.org/wiki/RAND): corresponde à Rand Corporation, um “global policy think tank”.
Na capa da edição portuguesa de “Os soldados da sombra – Ascensão e afirmação do império americano” assinala-se que o New York Times sintetizou o livro assim: “A história do obscuro grupo de intelectuais que moldou o mundo moderno.”
Já o autor explica que a designação resulta da contracção de “research and development”, pesquisa e desenvolvimento, sendo que os seus detractores optaram por atribuir-lhe outras funções: “pesquisa e nenhum desenvolvimento”. Mas não deixa de ter envolvimentos, no mundo da política – e, portanto, da economia, das guerras, das fomes, etc. – ou não fosse por isso e para isso que foi constituída.
Má vontade, dir-se-á, porque o trabalho constatou, entre outros factos, que a RAND ajudou, nos anos 50, a Administração americana, nas mãos de Eisenhower, a enfrentar a ameaça de guerra termonuclear com a então União Soviética; na década seguinte, o envolvimento norte-americano no Sudeste Asiático foi lá buscar cabeças para os “principais cargos políticos”. Mais, o autor entende que a estrutura reduzida do governo de Reagan, nos anos 80, e a sua política intervencionista serão resultado das actividades do “think tank”. Muito se pensa por ali!
Indo ao campo prático, o autor, que obteve uma autorização da própria RAND para sobre ela escrever, regista que, por exemplo, no final dos anos 50 um engenheiro da organização desenvolveu o conceito de “packet switching”, ou rede de comutação de dados, que se revelaria básico na concepção e funcionamento da Internet.
Nos últimos 60 anos, recorda a Wikipedia, mais de três dezenas de vencedores do Prémio Nobel tiveram ligações com a organização em algum ponto das suas carreiras. Quanto às áreas de trabalho correntes, aí estão as políticas juvenis, a justiça civil e criminal, a educação, o ambiente e a energia, a saúde, a política internacional, os mercados de trabalho, a segurança nacional, as infraestruturas, a política de informações, gestão de crises e preparação para desastres, etc. Um mundo que, como se vê, dá para intervir em tudo, em todo o lado, em qualquer oportunidade.
Na governação da RAND estão representados vários grupos de interesses, encontrando-se aí, por exemplo, o nome de Francis Fukuyama; entre os eméritos, Frank C. Carlucci; no quadro dos que por lá passaram temos Walter Mondale, Condoleezza Rice e Donald Rumsfeld.
Para terminar, foca um exemplo do trabalho desenvolvido por estes cérebros: foi um consultor da RAND, Vernon L. Smith, prémio Nobel da Economia em 2002, quem estabeleceu a base teórica da desregulação dos mercados energéticos nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. Um outro colaborador, William Vickrey, também ele Nobel da Economia em 1996, em partilha com James A. Mirrlees, forneceu o fundamento da subida dos preços cobrados pelas companhias de electricidade, telefones e transportes aéreos durante os períodos de maior uso. E no seu palmarés está a criação da portagem rodoviária urbana, actualmente tão em voga.
Como se ilustra, entre cabeças pensadoras, punhos de dinamite, e arsenais de todo o tipo, Estados não-párias como os EUA têm as suas reservas bem constituídas e oleadas, para o que der e vier.

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Alex Abella
Os soldados da sombra – Ascensão e afirmação do império americano
Editorial Bizâncio, 16€

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