Nostalgia pela esperança

«Já não restam anarquistas», suspira o inspector Crespo quase no final do último romance do chileno Luis Sepúlveda, “A Sombra do que Fomos”. E é esse sentimento de fim de uma época que perpassa por todo o livro: já não restam anarquistas, como também já não restam exilados, nem sonhos, nem ideais – já não restam esperanças de que o mundo pode ser melhor, mais democrático, mais solidário… enfim, mais justo.
Finda a opressão da ditadura militar, regressados os que tiveram de procurar abrigo noutras paragens, ficou no entanto perdido para sempre o idealismo dos que queriam mudar o mundo. Regressaram a casa mas continuam expatriados: não são daqui nem de lá, desse Chile que Pinochet marcou profundamente no mais íntimo do povo nem dessa Europa onde tentaram lançar amarras.
Só a mestria inconfundível de Sepúlveda consegue fazer do encontro de três velhos companheiros de armas, revolucionários reformados mas não conformados, perdedores (de si e dos ideais de esquerda) uma autêntica catarse para toda uma geração (ou serão duas?) que acreditou verdadeiramente que os amanhãs cantariam.
Em “A Sombra do que Fomos” Sepúlveda narra-nos a mesma estória a dois tempos e múltiplas vozes. No fundo, quando sorrimos com Salinas, Garmendia, Arencibia, Aravena ou mesmo Crespo sorrimos para nós próprios (e por nós).
O romance, que mereceu ao escritor mais um galardão, desta vez o Prémio Primavera de Romance 2009, lê-se com o mesmo prazer de “O Velho que Lia Romances de Amor” ou “Patagónia Express”, para citar só dois dos seus livros mais conhecidos. E só não nos deixa amargurados porque Sepúlveda fez as pazes com o passado e sabe contá-lo com sensibilidade e ironia – que a inteligência permite dosear nas exactas medidas.

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Luis Sepúlveda
A Sombra do que Fomos
Porto Editora, 14,40€

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(C) Vieira da Silva

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