Pedro Miguel Gon | O Perigo na Ponta da Esferográfica

1– O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Perigo na Ponta da Esferográfica»?
R-Este livro é a minha quarta obra publicada. É um livro de contos e já antes havia publicado, em 2001, um outro livro de contos com o título «O Livro dos Dias à Tarde». Os restantes livros são obras poéticas, das quais a mais relevante é «Quem Será que Escreve os Meus Textos?». Este «Perigo na Ponta da Esferográfica» é um livro mais cuidado que os anteriores, talvez porque eu seja hoje um autor mais maduro, e também mais consistente, uma vez que está mais claro ambiente em que gosto de plasmar as minhas narrativas. Infelizmente os textos aqui incluídos não são propriamente representativos da minha produção actual. Os meus textos mais recentes são ainda mais acutilantes, naquilo que procuram exprimir; e mais económicos, na escultura da expressão.

2– Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-Não posso dizer que haja uma ideia singular fundadora do livro, uma vez que se trata de uma colectânea de contos. São, mais precisamente, quinze os textos que constituem este livro. Mas posso dizer o que esteve na origem de cada um destes textos; e estarei, ao fazê-lo, a revelar uma parte do funcionamento do meu processo criativo. Para mim a ignição de um texto é sempre uma determinada ideia que me impressiona, seja pelo que tem de insólito, de absurdo ou simplesmente de cómico. Só depois edifico o texto, que é afinado pela sua capacidade de fazer sintonizar no leitor a ideia. Creio que não sou um “autor de frase”; sou antes um “autor de ideia”. Por exemplo, o conto A Campanha parte da seguinte interrogação radical: e se um dia fosse possível comprar filhos enlatados num supermercado? O conto O Avião nasce da noção intelectualmente honesta e moralmente incorrecta de que há seres humanos a mais no planeta. De um modo geral, as ideias subjacentes a estes textos reflectem uma certa perplexidade perante a sociedade tecno-científica em que vivemos, que nos desumaniza, talvez, e que nos transforma, seguramente. Cada um dos textos serve para sintonizar uma ideia pertinente – pelo menos para mim – e deixar um lastro de pensamento.

3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Eu sou um criador um pouco caótico, uma vez que tenho dificuldade em começar e acabar linearmente um texto. Os meus textos constroem-se em várias camadas de tempo, por várias visitas, expostos a estados mentais diversos. A minha actividade assemelha-se a uma certa transumância, deslocando-me de texto em texto, procurando-lhes a ignição que deveria acender o leitor. Desta forma acabo por ter vários projectos ao mesmo tempo. O género que mais me atrai é, sem sombra de dúvida, o conto. Não é, portanto, de espantar que tenha um largo número de contos em construção simultânea, uns em pleno esqueleto (a maioria) e outros em pré-conclusão, que eventualmente darão origem a uma nova antologia de contos. Também tenho em fase de desbaste uma novela com o título provisório «O Capitão Não Tinha Caneta». Noutras áreas tenho concluído um livro de poesia que está para entrar em revisão crítica; e um guia turístico-cultural de Coimbra, também concluído, em problemática fase de produção editorial.
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Pedro Miguel Gon
O Perigo na Ponta da Esferográfica
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