Um fato Armani

Certamente não andará toda a gente a pensar em ter uma peça Armani, mas a curiosidade por aquilo que a maioria só vê nas montras terá aumentado em Portugal com a entrada de Cristiano Ronaldo para o mundo do estilista, na vertente publicitária. Pois é, e logo o jogador português como garoto em cuecas, Armani, claro, já nesta época de Primavera/Verão.
Se o futebolista já tem o seu quantum satis de fama, o homem de moda irá muito à frente, na antiguidade e provavelmente na fortuna acumulada, embora nunca se saiba o que reservam os balanços post mortem, quando os herdeiros avaliam as contas bancárias e os credores também. Mas a biógrafa garante que, por esse lado, Armani não é apanhado: ele é o mais rico entre os seus pares (dados de 2006).
Passemos à frente, porque se trata aqui de uma biografia, Ser Armani, tratada por uma jornalista italiana e ensaísta, como é apresentada pela editora portuguesa da obra, que lhe acrescenta a condição de crítica de moda (e afins…) em diversas revistas italianas. E, por isso, vem a propósito que se interesse por um dos deuses da moda em que se move.
Claro que a autora pensou avançar por um lado mais prático, embora mais comprometedor do ponto de vista de autonomia para a investigação que desejava fazer – sobre o homem desde o nascimento ao prestígio de hoje, na esteira de um percurso que, afinal, nem sequer foi linear. Mas Armani não aceitou a entrevista solicitada, e a presente biografia acabou por ser feita tendo até a colaboração de amigos do empresário e dos serviços de imprensa da sua empresa e acesso aos arquivos.
O estilista acordou para a actividade inicialmente mais como uma espécie de “costureiro” talentoso, embora amigos e ex-colegas de liceu lhe reconheçam o talento de desenhador desde muito cedo. A sua marca no gosto de vestir assumia a introdução de notas pessoais, um ponto aqui, outro ali, que, confessam os auditados, por pequenos que fossem, tornavam tudo mais interessante. E já nessa altura facultava essa disponibilidade de embelezamento a amigos dos dois géneros.
Depois vem o golpe de sorte, quando lhe falha o gosto pela medicina, que o levou aos bancos da universidade, mas que se revelou difícil pelas exigências de estudo introduzidas por uma cadeira como a Anatomia. E lá foi ele para a tropa, e depois a entrada no mercado de trabalho, numa ânsia de arranjar emprego, fosse o que fosse, desde que o lançasse na independência e libertasse dos pais, que nem sequer eram ricos.
Foram lançados os dados quando uma amiga que trabalhava na Rinascente o estimulou a candidatar-se a um lugar nesta cadeia italiana de grandes armazéns. Aqui vale-lhe, como ele relata, um certo ar inocente que lhe permitia sempre cativar as simpatias dos outros. “Eu percebia aquilo, acertava no alvo”, como é citado nesta biografia, a propósito dessa passagem pela moda de certo modo mais virada às massas.
A verdade é que os armazéns também estavam em mudança, 12 anos depois de terminada a Segunda Guerra Mundial. A Rinascente inspirava-se no gosto da burguesia milanesa, que levantava cabeça e recompunha fortunas. E aí desempenhou diferentes papéis que o lançaram na corrida para o que é hoje, com uma passagem pela Cerruti e, por fim, a sua própria empresa.
O resto sabe-se, acumulou prestígio mundial, fortuna, reconhecimento. Quanto a esta obra, tratou-se da “aventura de contar a vida de alguém”, o que constitui “um grande trabalho de arqueologia das emoções”. E dessa iniciativa a autora recolheu, de Armani, o “talento para enfrentar a vida e a sua humanidade”, o que vai ao encontro de uma posição favorável de partida e de chegada.
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Renata Molho
Ser Armani, a biografia
Arteplural edições, 24€

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