Ode a uma nação

Este é um dos mais belos livros sobre um amor impossível que é uma metáfora sobre a impossibilidade de um país. “O que o dia deve à noite”, de Yasmina Khadra, é uma ode à Argélia, uma epopeia histórica sobre a independência sangrenta de uma colónia desejada (e amada) por argelinos – nativos e de origem francesa.
A Argélia é um país que 48 anos depois da independência ainda não sarou as feridas causadas por 132 anos de domínio francês, a que junta uma luta fratricida de cariz religioso que perpetua a guerra civil.
E é através da história de amor impossível entre dois jovens – o argelino Younes e a francesa Émilie – que o autor narra a guerra entre dois povos que amam a mesma terra e se confrontam durante seis anos. Mais de 300 mil mortos depois, nada será como antes, ninguém encontrará a paz de espírito com que sonhou.
Este percurso de toda uma nação é dado a conhecer ao leitor através da história pessoal de Younes. Filho de camponeses endividados, o menino parte para a cidade com a família quando o pai perde as terras devido a um incêndio criminoso em vésperas da colheita. Na miséria, sem nada lhe restar a não ser o orgulho, o camponês Issa não aceita a ajuda do irmão farmacêutico que vive na cidade e arrasta a família para Jenane Jato, o subúrbio nauseabundo de Orão.
É aí que Younes vai crescendo, assistindo aos sucessivos desaires do pai, até o desespero o levar a entregar a custódia do rapaz ao irmão “rico”, Mahi, homem culto casado com uma francesa.
O casal não tem filhos, pelo que proporciona a Younes tudo o que faz parte da educação de um jovem burguês. O rapaz passa então a chamar-se Jonas, e com a sua pele clara e olhos azuis facilmente se confunde com um francês.
Devido a problemas políticos de Mahi, a nova família muda-se então para Río Salado – onde existe uma grande comunidade de espanhóis – região de vinhedos onde Jonas vai viver uma juventude feliz e alegre, integrado num grupo de jovens franceses.
É também em Río Salado que conhece Émilie – e as duas histórias seguem paralelas, a de amor e a da nação, precipitando-se ambas para a catástrofe.
Terminada a guerra e já com a Argélia independente, o leitor é então levado a acompanhar o drama dos que partem – os “pieds-noirs”, franceses nascidos na Argélia e obrigados a instalarem-se na metrópole que não conhecem nem gostam – e dos que ficam.
“O que o dia deve à noite” marca uma ruptura na aplaudida obra de Yasmina Khadra, cujo verdadeiro nome é Mohamed Moulessehoul. Oficial do exército argelino durante mais de três décadas, deixou a instituição em 2000 para se dedicar inteiramente à escrita, não sem antes ter visto a sua vida castrense prejudicada devido à carreira literária, o que levou o escritor a refugiar-se sob a capa de um pseudónimo feminino para continuar a escrever sem represálias.
“O que o dia deve à noite”, que recebeu o Prémio Romance 2008 da revista francesa “Lire” (foi considerado o melhor livro do ano), está a ser adaptado para o cinema e televisão por Alexandre Arcady.
Aliás, outras obras de Yasmina Khadra mereceram igual interesse: “O Atentado” foi comprado pela Fox Film e “As Andorinhas de Cabul” chega ao cinema pela mão dos franceses.
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Yasmina Khadra
O que o dia deve à noite
Bizâncio, 15€

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(C) Vieira da Silva

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