Amor proibido

Quem viu “O Paciente Inglês” e através do muito premiado filme de Anthony Minghella descobriu a fantástica escrita de Michael Ondaatje certamente não ficará desiludido com “Divisadero”, que o autor publicou em 2007 e está há já algum tempo disponível em português.
Tendo mais uma vez o amor como fio condutor e elemento de união das várias histórias, “Divisadero” é um romance marcadamente intemporal e universal, porque os sentimentos que unem e separam as pessoas são comuns a todos os tempos e lugares.
Com a mestria que lhe é reconhecida, Ondaatje constrói uma complexa teia de relações familiares e amorosas, onde as emoções são extremas (ou extremadas) até restar apenas uma ténue memória do que foram – e das pessoas que as provocaram.
Circunstâncias várias contribuem para juntar sob um mesmo destino quatro seres que se esforçam por ser uma família: um homem e três jovens. Da maternidade onde lhe morreu a mulher ao dar à luz, o homem traz não só a sua filha como uma segunda menina que ficou sem mãe nas mesmas circunstâncias. Criou as duas como suas filhas. Anna e Claire juntam-se assim a Coop, o órfão da família da quinta ao lado, que foi assassinada brutalmente levando o então casal a recolher o menino. São as histórias destes quatro seres, comuns enquanto partilham a mesma casa e distintas depois de um violento acontecimento os separar, que o leitor é levado a acompanhar ao longo de duas centenas e meia de páginas.
A saga desta estranha família agora separada é, pois, uma longa viagem ao mais íntimo da natureza humana. O romance atravessa a Califórnia dos anos 70, recua à I Guerra Mundial em França, detém-se nos ofuscantes neons dos casinos de Nevada. Em todos os cenários, em cada uma das personagens, sente-se o amor, pressente-se o medo e a saudade, intui-se no presente a marca dos dramas do passado.
Todo o romance é um vulcão em ebulição subterrânea, prestes a irromper. Só contido pelo lirismo comovente da prosa de Ondaatje.
Michael Ondaatje nasceu no Sri Lanka em 1943 e nas veias corre-lhe sangue holandês, tamil e cingalês. Depois de uns tempos em Inglaterra, instala-se definitivamente no Canadá, vivendo em Toronto desde 1962.
A sua carreira literária sofreu um grande impulso em 1992, ao vencer o Booker Prize com “O Doente Inglês”, livro que definitivamente traria o seu nome ao grande público ao ser adaptado ao cinema por Anthony Minghella, em 1996.
Recorde-se que “O Paciente Inglês” (título em português) venceu qualquer coisa como nove Óscares, e não lhe escaparam outros galardões em várias categorias, dos Bafta aos Globos de Ouro e aos Goya.
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Michael Ondaatje

Divisadero
Porto Editora, 16,50€

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(C) Vieira da Silva

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