Entre a fé e a ciência

Já muito se disse sobre a influência de Dan Brown e dos seus romances centrados no misticismo de seitas religiosas que tentam pôr em causa a Igreja Católica. E se muito do êxito do escritor norte-americano advém do seu estilo, com uma escrita concisa, capítulos curtos e permanente suspense, outra quota-parte deve-se, sem dúvida, à exploração do tema religioso.
Numa época de descrença generalizada em que as seitas emergem como cogumelos, aliar um enredo policial à curiosidade que rodeia os vários estados da fé revelou-se um verdadeiro filão. Não é de estranhar, pois, que desde então tenham surgido tantos autores a explorar essa fonte, e que livros anteriores tenham sido descobertos por um público ávido do género.
Vem isto a propósito de “A Lança Sagrada”, do francês Arnaud Delalande, autor que tem dedicado a sua curta carreira de cinco obras especialmente ao romance histórico e ao misticismo – tendo, aliás, vencido os prémios Évasion dês Relais H e da Função de França (1998) logo com a primeira obra, “Notre-Dame sous la terre”, bem como o galardão Jeand’Heurs do romance histórico (2002), com “L’Église de Satan”.
Embora na senda de livros como “O Código Da Vinci” de Brown, “A Lança Sagrada” não é um romance destituído de interesse. A intriga é consistente, as personagens principais têm espessura dramática e o estilo prende a atenção.
O recurso a dois tempos distintos para o desenrolar da acção – o período da morte de Cristo e a actualidade – resulta bem, sobretudo pela cuidadosa descrição de época e rigor dos cenários.
E apesar do risco de juntar na mesma história passado e futuro – a morte de Cristo e a tentativa desesperada de uma seita obscura para clonar o Senhor a partir do ADN encontrado na lança que há dois mil anos trespassou o seu flanco, ressuscitando assim o Messias – o resultado final é positivo, pois o autor soube vencer o desafio e tornar a sua narrativa verosímil.
E, claro, a envolvente policial dá ao romance um ritmo especial, que apesar de um certo “déjà vu” tem a originalidade de estar centrada numa personagem tão forte quanto desconcertante: Judite Guillemarche, a historiadora conselheira do Vaticano, amiga pessoal do Papa… e estéril.
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Arnaud Delalande
A Lança Sagrada
Livros do Brasil, 16,50€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.