O veneno dos boatos e mitologia afim

A liberdade de informação e de expressão do pensamento é seguramente uma das maiores conquistas dos portugueses. Ambas lhes estiveram interditas durante décadas e a recuperação desses direitos, afinal universais, não tem evoluído sempre da forma mais aceitável, principalmente nos últimos anos.
A circulação de boatos, rumores, lendas e mitos urbanos, muitas vezes considerados como expressões semelhantes, encontrou terreno fértil numa sociedade, a nossa, que emergiu para a liberdade no que à comunicação se refere nem sempre nos limites de contenção desejáveis.
Algumas interpretações judiciais, talvez menos judiciosas (por vezes parece que a política oblige…), não têm contribuído para um clima de respeito pelo bom nome, respeitabilidade e honorabilidade dos visados por notícias que não passam de puras invenções.
Terreno fértil, pois, para quantos se dedicam ao mexerico, à intriga e à calúnia. Se o quadro é negro no que se refere à comunicação social, o agravamento da situação foi largamente proporcionado, até estimulado, pela aceleração da Internet, telemóveis e redes de comunicação variadas hoje acessíveis a uma boa parte da população.
Curiosamente, o fenómeno não tem estimulado a investigação académica de quantos especialistas por aí se dedicam à análise dos fenómenos comunicacionais. Nem mesmo quando se dedicam à crise geral dos meios tradicionais parecem acordar para essa triste realidade que é o facto de muita da informação emergir a partir de dados não credíveis ou mesmo inventados. A investigação dos temas noticiosos, o cuidado na mediação, o confronto das fontes fica sabe-se lá para quando.
Tudo isto a propósito de uma obra que procura abordar essa onda a que chamou “mitos urbanos e boatos”, partindo de casos concretos que logo na capa são chamados a estimular a leitura: marcianos na praia de Carcavelos, ratos no Convento de Mafra, um esfaqueador na Praça de Espanha. Tudo histórias (“estórias com que alguns pensam aumentar as vendas…) que certamente já chegaram a cada um de nós e se tornaram mais frequentes com as montanhas de correio/lixo electrónico que circulam para combater o ócio de quantos já não têm cafés onde ler.
Miguel Sousa Tavares, ele próprio alvo de boatos diversos, é o prefaciador deste livro de uma jornalista a quem um dia foi pedida uma história sobre estas “estórias” e acabou a produzir um livro. E é Sousa Tavares quem põe uma questão oportuna: “Duvido que em muitos outros países o boato encontre terreno tão fértil como aqui para prosperar como uma praga de abelhas-assassinas”.
Susana André parte de uma análise teórica sumária para juntar uma colectânea dos mais diversos boatos, mitos urbanos ou lendas que por aí têm circulado nos últimos tempos.
Não deixa de ser oportuno: por um lado, é possível ver de uma assentada até onde vai a imbecilidade na repetição de enredos muitas vezes sem qualquer sentido nem verosimilhança, quase sempre alvo de desmentidos. E mesmo assim refeitas, repetidas, reenviadas. Com que efeitos? Um é conhecido: por vezes há alguém num media que engole o isco, facilita, ou simplesmente está interessado em que uma determinada mensagem passe. E se algumas podem ter um fundo de verdade, outras são veneno puro. Tradicionalmente, o papel dos jornalistas era separar o trigo do joio…
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Susana André
Mitos urbanos e boatos
A Esfera dos Livros, 17€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.