Terror religioso

Dalia Sofer partiu da sua experiência para escrever “O Último Setembro em Teerão” e o resultado é um livro belíssimo, que com uma apurada sensibilidade obriga o leitor a reflectir sobre o sentido da vida – e especialmente sobre a influência de circunstâncias exteriores no percurso pessoal e familiar (e até social).

Centrado no Irão aquando da queda do Xá Reza Pahlavi e da instauração da república islâmica, o romance coloca o leitor perante comportamentos comuns a todas as guerras, em todos os tempos: a irracionalidade, o terror, a arbitrariedade, a perseguição. Mas também face ao despertar de sentimentos opostos por vezes adormecidos no mais íntimo de cada um: o ódio e o amor, a solidariedade, a ganância, a injustiça, a vingança, a identidade e a alienação, a liberdade.

“O Último Setembro em Teerão” é sobre tudo isso – sentimentos e comportamentos recaem sobre uma família, uma só família que parece arcar com todos os pecados e todas as injustiças do mundo. E no final das cerca de duas centenas e meia de páginas fica no leitor um travo amargo, um aperto no coração.

O livro narra a história de joalheiro e gemologista Isaac Amin e da sua família. Uma família socialmente importante, bem relacionada e com uma vida economicamente bastante confortável.

Mas com a ascensão ao poder do regime do Ayatollah tudo muda. Devido à riqueza acumulada e às frequentes viagens a Israel, Isaac é preso sob a acusação de ser espião da Mossad (serviços secretos israelitas).

Enquanto na prisão Isaac passa pelas mais humilhantes provações e dolorosas torturas, a sua família vive dias de pesadelo, envolvida num universo hostil e completamente kafkiano.

A pouco e pouco, o leitor penetra no mais íntimo de cada um dos membros da família, partilhando o seu presente e as suas recordações, sentindo como seus o medo, a incompreensão e a desilusão de cada um deles.
Acompanha o frenesim de Farnaz para tentar saber onde se encontra preso o marido, debatendo-se entre a memória tão próxima de um passado confortável e um presente de sobressalto em que não pode confiar em ninguém – nem na empregada de sempre, que julgava uma amiga e agora se apercebe do ressentimento acumulado, e cujo filho, guarda da Revolução, é o principal dinamizador do assalto à oficina de Isaac.

Enternece-se com Shinrin, a filha de nove anos que tem amigas cujos pais fazem parte dos guardas da Revolução que prenderam o seu pai, enquanto ela tenta ingenuamente proteger cidadãos desviando as suas fichas policiais e enterrando-as no quintal.

Ou apreende como o jovem Parviz, o filho mais velho que estuda arquitectura em Nova Iorque e aguarda ansiosamente a chegada do dinheiro da família para pagar as dívidas que vai contraindo no seio da comunidade judaica, descobre o amor e a austeridade religiosa.

Enquanto observa o declínio da família, o leitor é simultaneamente confrontado com as causas e as consequências do fundamentalismo religioso.

Dalia Sofer nasceu no Irão em 1972, tendo fugido com a família do país quando tinha dez anos. E embora afirme que esta sua primeira obra não é autobiográfica, não nega que o romance é inspirado na sua própria vida.

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Dalia Sofer

O Último Setembro em Teerão

Editorial Presença, 15€

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(C) Vieira da Silva

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