Deana Barroqueiro | O Romance da Bíblia

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Romance da Bíblia»?
R- É um livro muito diferente de qualquer dos meus romances e ocupa um lugar muito especial na minha obra. Pela linguagem e pela abordagem aos temas.
A linguagem é predominantemente poética e sensual, bem da alma, veiculando muito do meu pensar e sentir, enquanto nos meus outros livros, o narrador se identifica quase sempre com os cronistas e aventureiros do Renascimento, quer nas palavras quer nas ideias.
Considero ainda, sem qualquer tipo de vaidade, O Romance da Bíblia um livro original, não tanto pelos temas – que são sobretudo as histórias Livro do Génesis, do Antigo Testamento –, mas pela abordagem dessa temática, de um modo nunca antes tentado por uma escritora, ou seja, através do olhar crítico e acusador das próprias personagens femininas a quem se dá finalmente voz e alma.
Talvez por essa matéria ser passível de criar polémica e ferir susceptibilidades, nenhuma autora portuguesa ou estrangeira ousou tratá-la com cores mais realistas, refugiando-se sempre na interpretação tradicional, veiculada através dos tempos pelas três religiões que têm as suas raízes no Livro do Génesis: judaica, muçulmana e cristã. Prova-o o escândalo, assaz ridículo, suscitado pelo Caim, de Saramago, uma obra ligeira e divertida, muito menos crítica e denunciadora dos maus exemplos da vida dos patriarcas e de outras personagens do Antigo Testamento, do que o meu romance.
Em O Romance da Bíblia, as histórias do livro dito sagrado foram minuciosamente escrutinadas por uma mulher e narradas de uma forma realista, sem os véus diáfanos da fantasia ou da fé. Neste romance desmascara-se o mito, mostrando que as histórias de “bons exemplos”, há séculos transmitidas de um ponto de vista masculino, são de facto modelos de aviltamento e sujeição de uma metade da Humanidade pela outra, muitos dos quais perduram no exercício do poder, violência e humilhação a que os homens ainda hoje sujeitam as mulheres, em nome de uma qualquer “verdade” religiosa ou ideológica, mas que não é senão uma ânsia de poder sobre o mais fraco e dependente. Basta ver como é tratada a mulher no mundo muçulmano, onde pouco mudou (ou mudou para pior) desde os tempos de Abraão.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Quis resgatar as minhas duas obras preferidas, os Contos e os Novos Contos Eróticos do Velho Testamento – que há muito deixaram de estar acessíveis aos leitores –, reeditando-as em forma de romance, num só volume, que contasse a saga de todas as mulheres desse universo bíblico.
Era também um desafio irresistível, explorar os escaninhos mais recônditos da alma feminina, desde a sua génese, viajar por esse misterioso mundo das sensações, do erotismo a custo amordaçado que impregna todo o Antigo Testamento, povoado de velhos libidinosos e brutais.
Sensações de mulheres, descritas por outra mulher, nessa forma tão visceral de sentir que dificilmente um homem saberá reconhecer e interpretar. Gostaria que O Romance da Bíblia sacudisse alguma poeira ao Velho Livro e fizesse reflectir um pouco sobre a condição da mulher e o fanatismo religioso dos que se crêem donos de Deus e da única Verdade.
Era também aliciante o desafio de recriar, de modo verosímil e realista, a vida desses homens e mulheres, forçosamente pouco cultos e muito supersticiosos, da Antiguidade Pré-Clássica, a lutarem com ferocidade pelo seu lugar num mundo bárbaro de guerras e fomes, sobretudo as mulheres que lançavam mão de todos os meios que lhes sugeriam a esperteza e o engenho, a fim de assegurarem a própria sobrevivência, mesmo que isso implicasse a destruição do seu próximo.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Ando a escrever, em alternância dois romances diferentes, “de longo fôlego”. Dado que levo alguns anos com a gestação de cada livro, tenho de ter sempre duas obras para não enjoar ou bloquear. Como também não sei qual deles, a dado ponto, tomará freio nos dentes e ultrapassará o outro – não controlo esse processo, a escrita é que me comanda –, prefiro não revelar já o mistério da sua identidade, que é parte do encanto da escrita, tanto mais que qualquer das “crianças” pode morrer durante a gestação.
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Deana Barroqueiro
O Romance da Bíblia
Ésquilo

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