O Islão e as suas burkas

Sendo matérias de fé, as religiões têm sempre limites intransponíveis, mesmo para além dos dogmas. Algumas, por razões práticas, procuram aplanar dificuldades, eliminam conceitos e preconceitos, adaptam o que podem aos tempos que correm. E onde correm os seus acólitos.
Desde logo, a primeira lei do Islão preceitua a adoração do “Criador num espírito de fraternidade e tolerância”, o que se traduz numa declaração de fé (chahada), assim: “Eu testemunho que não há Deus senão Deus e testemunho que Maomé é o seu Profeta”. E o Alcorão “estabelece a constituição inviolável de várias centenas de milhões de seres humanos”.
O islamismo tornou-se um problema, talvez já não seja apenas uma questão religiosa, como daí decorre. A matéria das crenças misturou-se, ou foi misturada, com a política (não houve sempre nas religiões uma grande dose de ambição política?).
O Islão, mais o livro que o sustenta, o Alcorão, mantiveram, e alimentaram, uma mancha de penumbra, muitas vezes sombra, que os torna de difícil entendimento. Por vezes emerge, aqui e acolá, e torna-se violento, aliás à semelhança de outras religiões.
O autor desta obra lembra desde logo no prefácio que o Islão é “um desconhecido que amedronta”, mergulhado “numa total opacidade”, pois “raras pessoas conseguem distinguir os seus grandes grupos, as suas doutrinas ou o seu desenvolvimento histórico”.
Explicações, estas e outras, assim suscitadas e com as respostas elaboradas por um especialista. Diz Malek Chebel que pretendeu “dar a ler uma apresentação sucinta, mas rigorosa, sobre o Islão, sem mascarar as suas contradições, as suas questões obscuras”. De igual modo coloca questões de actualidade como o que é um aiatola, ou uma fetwa, ou um harém, não esquecendo as virgens prometidas no paraíso que ressuscitam sempre que há um atentado suicida.
Não há fuga aos problemas modernos, os que suscitam debates acalorados, como o papel da mulher na sociedade, logo associado a questões como a do uso da burka em países ocidentais (e não só). Ou a forma como o Islão encara as questões científicas no domínio da bioética, a clonagem humana, os organismos geneticamente modificados (OGM) ou a sida. Dúvidas comuns a outras religiões, mas que devido à situação política, à geoestratégia, se tornam uma dificuldade maior para os islamitas.
Vejamos a questão da (des)igualdade da mulher nas sociedades islamitas, a lei corânica e a prática. Assinala o autor que “enquanto a apreciação corânica abona a seu favor, assim como a atitude geral do Profeta, o mesmo não acontece com a jurisprudência sobre a mulher, seja a charia ou as mentalidades colectivas”. E reconhece que o objectivo “dessa chusma de textos consiste em manter a mulher numa posição inferior à dos homens”, com a explicitação das várias formas de consumar o propósito.
Por fim, o livro inclui um pequeno glossário, sempre muito útil em matéria de tantas particularidades conceptuais. E há ainda uma bibliografia de referência, propositadamente sintética, de “cem livros sobre o Islão”.
A completar o quadro, “as mil datas que constituíram o Islão”, do nascimento de Maomé, ao início da revolução islâmica, no Irão, com o regresso ao país do imã Khomeini e a imposição do véu como forma de identificação da mulher muçulmana. Passando, por exemplo, pelas Cruzadas concretizadas pelo cristianismo – leia-se do Ocidente.
Muito para ler e reflectir, pois então.
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Malek Chebel
O Islão Explicado
Publicações Europa-América, 19,90€

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(C) Vieira da Silva

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