História de uma rainha

Maria Pia não é, certamente, uma das rainhas de Portugal mais conhecidas da população, o que não deixa de ser estranho, sobretudo se pensarmos que o seu reinado é já atravessado pelas controvérsias nacionais e internacionais que acabarão por ditar o fim da monarquia e dar origem à República portuguesa, implantada em 1910 após o regicídio do rei D. Carlos, precisamente o seu filho mais velho e herdeiro do trono aquando da morte de D. Luís, com quem a princesa italiana tinha casado aos 14 anos.
Por isso é de saudar a iniciativa de tornar um pouco mais próxima essa personagem histórica, mesmo que – ou talvez por isso mesmo – através de um romance. Falamos de um livro recentemente editado, “Eu, Maria Pia”, de Diana de Cadaval.
Em declarações públicas, a autora é a primeira a confessar ter escrito um romance por não lhe interessar biografar a rainha, embora se tenha mantido fiel aos principais acontecimentos e datas que marcaram a vida de Maria Pia. A “declaração de interesses” da autora protege-a de eventuais críticas quanto a uma certa benevolência do seu olhar relativamente ao carácter e ao comportamento de alguém com influência na condução do reino.
Filha mais nova de Vítor Emanuel II, o responsável pela união de Itália e primeiro rei do país unido, Maria Pia de Sabóia é apresentada por Diana de Cadaval como uma menina traumatizada pela morte precoce da mãe e pela revelação da traição conjugal do pai (cuja amante o acompanhará até à morte). Isso explicaria muito do seu comportamento futuro, enquanto rainha de Portugal: o receio de também ela ser traída e, ao sê-lo pelo seu antes apaixonado marido D. Luís, 10 anos mais velho, teria reagido compensando o despeito e a humilhação no fausto com que se cobria, das jóias aos tecidos caros importados de Paris.
Excessivamente mimada pelo pai e pelos irmãos, Maria Pia teria assim desenvolvido uma personalidade egocêntrica e fútil, esperando que a vida de casada se assemelhasse a um conto de fadas. Como se sabe, não o foi. E (con)viveu mal com isso. A corte portuguesa era bem menos cosmopolita do que a italiana, que trazia como termo de comparação – o próprio país era mais pobre e atrasado, o povo vivia na miséria, a monarquia estava a ser fortemente contestada e os cofres revelavam-se quase vazios.
Diana de Cadaval “desculpa-lhe” esse gosto pelo fausto e justifica-lhe os “rombos” numas já frágeis finanças públicas, contrapondo a compaixão pelos que sofrem e o auxílio aos pobres. Mas também revela o seu amadurecimento como mulher e como rainha, as suas alegrias e tristezas, as suas oscilações de humor, as tragédias familiares e do reino. Uma personalidade de excessos, uma vida trágica – até ao final, com a expulsão de Portugal e o regresso à Itália natal, onde viria a falecer.
Através da vida de Maria Pia, o leitor acompanha uma época politicamente muito rica na Europa e em Portugal, com a transição do absolutismo para a monarquia constitucional e desta para a República.
Sendo este livro a sua primeira incursão no mundo da escrita, a duquesa de Cadaval revela desde logo coragem, não só na escolha da personagem central mas também quanto ao estilo: toda a história é narrada na primeira pessoa, dando ao leitor a sensação de estar a ler o diário de Maria Pia ou, em certos momentos, a ler-lhe mesmo os pensamentos mais íntimos. O resultado final é um texto simples (não simplista), de fácil e agradável leitura, capaz de espicaçar a curiosidade do leitor sobre a vida da penúltima rainha de Portugal – e, quem sabe, levá-lo a procurar obras mais consistentes e de maior rigor acerca de um interessante período da História nacional.

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Diana de Cadaval
Eu, Maria Pia
A Esfera dos Livros, 21€

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(C) Vieira da Silva

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