Esquecer é perigoso

Há alguns intelectuais, poucos (mesmo muito poucos), que são sempre uns desmancha-prazeres. A sua independência e rigor de análise sobrepõem-se a fidelidades ou simpatias – para com pessoas e/ou ideologias. Tony Judt era um desses raros seres.
O historiador britânico, falecido a 6 de Agosto em Nova Iorque, aos 62 anos, sofria de esclerose lateral amiotrófica (ou Lou Gherig), uma doença neurodegenerativa que ataca as células do sistema nervoso central paralisando os movimentos e a fala mas preservando a lucidez. Uma lucidez que Judt manteve até ao final e o levou a ditar – como testemunho – “Night”, um texto tão impressionante quanto comovedor sobre a forma como a doença estava a deteriorar o seu corpo, deixando-lhe intacto o pensamento.
Investigador e autor de livros e ensaios, Judt era considerado um dos maiores especialistas sobre a Europa da segunda metade do século XX.
Uma das suas obras – “Pós-Guerra. História da Europa desde 1945” (publicada em Portugal pelas Edições 70) – em que analisa a Europa desde o fim da II Guerra Mundial ao início do século XXI, é para muitos a melhor já editada sobre a matéria e ficará para sempre como uma referência. Com ela esteve entre os autores finalistas do prémio Pulitzer de 2005. Em 2007 foi galardoado com o Prémio Hannah Arendt, um ano depois com o Prémio do Livro Europeu e em 2009, já doente, recebeu o Prémio honorário George Orwell.
Mas neste momento que é simultaneamente de homenagem e de despedida, o livro de Tony Judt de que me apetece falar é “O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias”, prova provada de que era realmente um “não-alinhado” (no que isso significa de descomprometido).
Neste conjunto de 25 ensaios (se contarmos a introdução e a conclusão), o historiador traça uma bissectriz desde a II Guerra Mundial até à actualidade, não deixando sem reflexão nenhum dos grandes temas da nossa História recente nem incólume nenhum dos intelectuais mais marcantes. E a nós, leitores, deixa-nos desconcertados com a sua lucidez e honestidade intelectual, por vezes até irritados pela desmistificação de personalidades que nos habituámos a admirar e sob as quais temos (quase) sempre um olhar complacente, mesmo perante atitudes e posições que dificilmente aceitaríamos noutros. Do mesmo modo, a sua crítica racional a ideologias acaba por nos incomodar, embora as mais das vezes não o queiramos admitir. Para Tony Judt nada nem ninguém estava acima da crítica. Não por acaso foi um activista cívico tão polémico.
Sendo descendente de uma família de judeus de Londres e um entusiasta de Israel (na adolescência trabalhou nos kibutz e mais tarde participou na Guerra dos Seis Dias como condutor e tradutor), isso não o impediu de criticar as políticas israelitas e de passar a defender um Estado bi-nacional para judeus e palestinianos.
Tendo optado por viver e trabalhar nos Estados Unidos, não deixou por isso de criticar publicamente a condição de superpotência única assumida pelo país, a influência dos judeus na política norte-americana ou, mais recentemente, a guerra do Iraque.
Sobre tudo isso e muito mais reflecte neste “O Século XX Esquecido”, em que dá nota da sua preocupação face ao afastamento dos intelectuais do debate político, fruto da era do esquecimento em que vivemos. Esquecimento das origens, da história, das ideias, desaguando num presente de ignorância e num futuro que não perspectiva optimista.
«Os ensaios deste livro foram escritos num período de doze anos, entre 1994 e 2006. Cobrem um leque bastante vasto de assuntos – dos marxistas franceses à política externa norte-americana, da economia da globalização à memória do mal – e em termos geográficos vão da Bélgica a Israel. Mas são duas as suas principais preocupações. A primeira é a função das ideias e a responsabilidade dos intelectuais: o ensaio mais antigo aqui reproduzido discute Albert Camus, e o mais recente é dedicado a Laszek Kolakowski. A minha segunda preocupação é com o lugar da história recente numa época de esquecimento: a nossa aparente dificuldade para dar sentido ao século turbulento que há pouco terminou, e para aprender com ele», explicita Judt logo na Introdução.
Os ensaios – anteriormente publicados em revistas reputadas como “New York Review of Books”, “London Review of Books”, “Foreign Affairs” ou até no “Ha’aretz” (israelita) – têm como ponto de partida os acontecimentos de 1989, face ao seu significado para a geopolítica dos anos seguintes, mas recuam até ao nazismo e ao comunismo, bem como se detêm na influência do marxismo (através dos seus apoiantes e dos seus detractores).
Uma das mais-valias do livro é precisamente o facto de a análise das grandes ideologias que marcaram o século XX ser feita a partir do posicionamento e de obras de intelectuais com elas (de alguma forma) comprometidos: os ex-comunistas e detractores Whittaker Chambers, Leszek Kolakowski, Manès Sperber e Arthur Köstler; os marxistas Louis Althusser e Eric Hobsbawm; os judeus Hannah Arendt e Primo Levi; o católico João Paulo II.
Mas não só. Na obra de quase meio milhar de páginas, Tony Judt reflecte ainda sobre alguns países em concreto, como a Bélgica (um país dividido), a Roménia (hesitante entre o passado comunista e o futuro europeu), a Grã-Bretanha (crítico de Tony Blair, que acusa de prosseguir as políticas privatizadoras de Thatcher) ou os Estados Unidos (um país complacente com Israel no conflito com a Palestina e cujos políticos mataram a América liberal).
O ensaísta detém-se ainda em vários acontecimentos históricos, como a crise dos mísseis russos em Cuba, que provocou uma certa tensão entre Fidel Castro e Kruschev; a “Guerra Fria” na era Reagan (com Kissinger a liderar a política externa), e a mais recente guerra no Iraque.
Por fim, a “boa sociedade” em análise numa comparação entre o modelo socioeconómico da Europa e o da América, e uma conclusão pouco optimista sobre o futuro da “questão social”:
«Na França pós-industrial (ou na Grã-Bretanha ou noutro lado qualquer) a economia foi prosseguindo enquanto o Estado, até agora, ficou para trás para pagar a conta; mas a comunidade desmoronou-se, e com ela a cultura política de um século, que combinava orgulho no trabalho, interdependência social local e continuidade entre gerações» (pág. 418).
Não é uma leitura doce. Mas é um murro no estômago que nos anda a fazer falta…
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Tony Judt
O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias
Edições 70, 24,23€

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(C) Vieira da Silva

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