Uma burra e um macaco-uivador

Ao princípio todo o livro “alucina” o leitor com a sensação de que este é mais um livro comum e desinteressante, que, qualquer alma descabida de uma ignorância comum pode escrever em 3 tempos, ou para outra ler a caminho do trabalho, a bocejar de um sono mal dormido, com e sem jornal debaixo do braço, em 2 tempos e meio.
A capa, que se assemelha à de um livro infantil, é mais que suficiente para provar que não podemos julgar a arte de um livro pelo seu aspecto.
O leitor é inicialmente exposto a desinteresse, afinal, quem é que quer saber de um autor, fictício, bem-sucessido que “perdeu a genica” e não consegue convencer os editores a publicar coisas novas.
Alguém contacta o autor de forma não muito comum. O autor entra em contacto com essa pessoa invulgar, é velho: um taxidermista. O taxidermista (na opinião do próprio) está a escrever uma espectacular peça de teatro, a sua obra -prima: com um macaco, uma burra, um rapaz e amigos do rapaz - porém precisa de ajuda para acabar de escrever a peça.
Quando o leitor se apercebe do que está verdadeiramente a ler, passa a existir a possibilidade do mesmo concluir que este livro se trata de uma obra-prima, que se debruça sobre o holocausto de uma forma extremamente original.
Não é uma “Anne Frank ou um rapaz de pijama às riscas”, é um simples macaco e uma burra simples, (personagens de uma peça de teatro e ao mesmo tempo animais embalsamados) numa pequena amostra de algo que não deve ser esquecido, envolto em palavras que formam um livro que é de leitura obrigatória para todos os amantes da liberdade e de boas leituras.
______________
Yann Martel
Beatriz e Virgílio
Editorial Presença, 13,50€

Siga a "Novos Livros" por Email

A BIBLIOTECA

A BIBLIOTECA
(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.