María Pilar Queralt del Hierro: “O livro mostra um D. Manuel ‘em pantufas’”

Confessadamente apaixonada por Portugal, a historiadora espanhola acaba de publicar mais um romance histórico, com o objectivo de dar a conhecer o passado comum dos dois países ibéricos, ou, como lhe chama, “esse álbum de família colectivo que é a História”. “As Mulheres de D. Manuel I” tem como protagonistas principais o monarca português e as suas três esposas espanholas: Isabel, Maria e Leonor. É um relato da vida íntima do “Bem-Aventurado”, caldeando rigor histórico e imaginação.

P – O que leva uma historiadora espanhola a interessar-se por um rei português e a escrever sobre a sua vida? O facto de as suas três mulheres serem de origem espanhola?
R – Sim, sem dúvida teve influência o facto de que as três esposas de D. Manuel I, Isabel, Maria e Leonor, eram espanholas, mas é preciso não esquecer que a figura do rei “Bem-Aventurado” ultrapassa fronteiras. É, juntamente com os Reis Católicos, ou, mais tarde, com Henrique VIII de Inglaterra, uma das figuras mais relevantes da Europa do seu tempo e, ao mesmo tempo, um grande desconhecido na vertente da sua vida privada.

P – Este é um livro sobre um homem visto através do olhar das suas mulheres?
R – Não, de todo. Embora D. Manuel e as suas três esposas sejam os protagonistas absolutos, o romance tem muito de grupal, dado que a relação de Maria e Isabel com as suas irmãs Joana “A Louca” ou Catarina de Aragão; ou de Leonor com a sua tia Margarida da Áustria, servem para que o relato se converta num “passeio” pelas cortes europeias da época. O que é verdade, sim, é que Isabel, Maria e Leonor mostram um “Bem-Aventurado” diferente do que aparece nos livros de História: o impulsionador de viagens ultramarinas, o responsável pela entrada de Portugal na Era Moderna, o mecenas das artes… mostra um D. Manuel “em pantufas”, que procuro revelar com rigor de historiadora, mas recorrendo à imaginação própria do romancista.

P – D. Manuel I, um rei que teve um papel estratégico na História de Portugal, aparece no seu livro como um homem emocionalmente dependente das suas mulheres. Concorda com esta interpretação?
R – Sim. D. Manuel I foi um homem extraordinariamente fiel às suas esposas, algo insólito na época. Não se lhe conhecem amantes nem bastardos e sabe-se do seu empenho em casar com Isabel de Aragão e do seu desespero pela morte de D. Maria, a sua segunda esposa. Pessoalmente, creio que por ter tido uma infância tumultuosa, marcada pela morte dos seus irmãos e os desentendimentos familiares entre o seu pai e a coroa, procurou, na criação da sua própria família, a segurança emocional que lhe permitiria enfrentar o desempenho do poder.

P – Com este livro pretende dar a conhecer a vida íntima e amorosa de um rei absolutista, internamente centralista e de grande tacto na diplomacia externa, que seguiu uma política dúbia e de grande crueldade para com os judeus (embora não tanto como os reis Católicos, e especialmente para lhes agradar)?
R – É indiscutível que a sua intolerância para com os judeus se deveu à influência ao seu desejo de agradar aos Reis Católicos, cuja intolerância raiava o fanatismo e que se valeram da sua filha Isabel, primeira esposa de D. Manuel, para estender a Portugal a sua política de intransigência para com muçulmanos e judeus. Se D. Manuel rompeu a tradicional e louvável tolerância dos monarcas portugueses face a outras culturas foi para fortalecer os laços com a monarquia espanhola.

P – Pode dizer-se que D. Manuel I enquanto homem era muito diferente do rei?
R – Sim, sem dúvida. No entanto, creio que isso é algo comum à maioria dos governantes. Os compromissos do cargo obrigam muitas vezes a afastar sentimentos e, inclusive, critérios pessoais. Ou, dizendo de outra forma, a prescindir daquilo a que hoje chamamos “inteligência emocional”.

P – Considera que as tragédias familiares que marcaram a sua vida – como a morte de mulheres e filhos e, até, de D. Afonso, o que acabou por levá-lo ao trono – moldaram a sua personalidade e tiveram influência na sua governação?
R – Evidentemente. D. Manuel esteve sempre convencido (pelo menos, segundo eu penso) de que a sua chegada a um trono que, em princípio, não lhe correspondia era uma espécie de predestinação. Isso obrigava-o a dedicar-se de corpo e alma à coroa e a manter um comportamento pessoal intocável. Não nos esqueçamos de que era um homem muito religioso e que tinha sido comendador da ordem de Cristo, o que implicava um certo espírito cavalheiresco.

P – Este livro exigiu-lhe muita investigação?
R – Muita e muito gratificante. Escrever sobre mulheres é sempre complicado, porque foram as grandes silenciadas da História. Apenas encontrei dados sobre Isabel e Maria. Relativamente a esta última, foram-me de grande utilidade umas cartas dirigidas a seus pais que se conservam na Real Academia de História de Madrid e que nos dão a chave da estreita relação entre ambas as cortes. Porém, juntamente com Isabel, são as filhas mais desconhecidas dos Reis Católicos. Só Leonor se tornou mais conhecida, devido à sua posterior condição de rainha de França e conselheira de Carlos V mas, mesmo assim, as três aparecem como meras figuras secundárias no teatro da História.

P – Por que se interessa particularmente por personagens históricos que estão relacionados com a História de Portugal e Espanha?
R – Simplesmente porque me fascina Portugal, e a sua História, feita de esforço e tenacidade, é apaixonante. Estou empenhada em contagiar os meus leitores espanhóis com esta paixão e, claro, em manter o interesse dos meus leitores portugueses!

P – O que leva uma historiadora a optar pelo romance?
R – As interpretações na História são muito perigosas. E mais, podem ser influenciadas por critérios pessoais ou sujeitas a interesses nem sempre confessáveis. Por isso, quando escrevo ensaio tento ser muito objectiva, apresentar dados mas nunca elaborar teses. O romance, pelo contrário, permite-me avançar critérios, dar azo à imaginação e aprofundar o lado mais quotidiano de tempos passados (a “petite histoire”, como dizem os franceses). Além disso, creio que é necessário nestes tempos de imediatismo noticioso, quando o que aconteceu ontem parece pertencer a um passado remoto, dar a conhecer o nosso passado comum, esse álbum de família colectivo que é a História. E o romance histórico – quando é rigoroso e não cai em esoterismo ou intrigas absurdas – é um veículo ideal para que o grande público conheça a sua História. Porque um povo que não conhece as suas raízes dificilmente pode enfrentar o seu futuro.

P – E porquê um romance epistolar?
R – Porque me pareceu uma boa forma de introduzir personagens secundárias de luxo, como Joana “A Louca” ou Catarina de Aragão, ambas irmãos de Isabel e de Maria, e com elas o despertar das cortes europeias para o Renascimento. Teria sido um autêntico “delito” ignorar a Inglaterra dos Tudor ou a Flandres dos duques de Borgonha. Por outro lado, creio que assim se demonstra que as mulheres naquela época apenas tinham voz em casa, a da sua intimidade partilhada… Note-se que as protagonistas permanecem caladas ao longo de todo o romance, só tomam a palavra quando escrevem.

P – O que está a escrever agora?
R – Continuo interessada em temas portugueses… Não está ainda totalmente definido, mas gostaria de trabalhar num tema relacionado com a Lisboa do século XVIII, uma cidade que, qual Fénix, renasceu das suas cinzas e integrou definitivamente a modernidade.
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María Pilar Queralt del Hierro
As Mulheres de D. Manuel I
A Esfera dos Livros, 23€

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