Amor no “bidonville”

Júlio Magalhães, director de Informação da TVI, tem um novo livro. “Longe do meu coração” é o terceiro da sua carreira de escritor, depois dos sucessos “Os retornados – um amor nunca se esquece” e “Amor em tempos de guerra”.
Como já vem sendo hábito, o amor está no centro do enredo, e é o que move os personagens e desenvolve a temática escolhida. No entanto, e como Júlio Magalhães já tinha provado anteriormente, a vertente mais interessante dos seus livros não é esta, mas sim o retrato social e histórico que lhe serve de cenário.
Neste “Longe do meu coração”, o leitor é transportado para um período importante e dramático da História mais recente de Portugal: a emigração para França nos anos sessenta.
O drama da emigração portuguesa é focado pelo autor em diversos aspectos, todos eles bem conseguidos e extremamente interessantes e bem contextualizados.
O leitor é convidado a acompanhar o percurso de Joaquim, e com ele as alegrias e tristezas, vitórias e desaires comuns à maioria dos emigrantes. Inicialmente temos Joaquim em Portugal, apenas um miúdo de 19 anos que se vê sem quaisquer perspectivas de trabalho ou de futuro, quer na terra onde vive quer mesmo no seu País, consequência do regime imposto por Salazar. A situação piora drasticamente quando o pai, que é o sustento da família, tem um acidente nos campos e deixa de poder trabalhar e, consequentemente, de valer à subsistência do agregado. É assim que Joaquim, depois de ler as cartas do tio emigrado em França (que diz maravilhas sobre a vida, o trabalho e o dinheiro que ganha), decide “dar o pulo” para França, mesmo contra a vontade do pai.
De uma enorme intensidade, a viagem até França é um dos mais bem conseguidos pedaços de prosa do autor. As dificuldades físicas e psicológicas encontradas – como o frio, a chuva, a neve, a perseguição da PIDE e mesmo a falta de comida – são bem descritas e por momentos o leitor sente-se transportado para aquele cenário e a viver na pele as agruras de Joaquim.
Mas mais difícil ainda revela-se a realidade no país de destino. Ao chegar a França, o primeiro sentimento de Joaquim e de Albano, o grande amigo e companheiro de viagem (e do leitor com eles) é o desapontamento, o desânimo, o desmoronar dos castelos construídos nas nuvens. O sonho acalentado durante toda a dura travessia dos Pirenéus, de que iriam viver numa moradia com jardim, desfaz-se completamente quando vêem o “bidonville”, com as suas longas ruas de barracas sem quaisquer condições. Como diz Albano em determinado momento, verbalizando a desilusão de ambos: “Joaquim, que raio é isto? Foi para isto que viemos? Isto é mais pobre que Portugal!”
Ao longo do romance, o leitor é confrontado com a vida muito dura dos emigrantes portugueses em França, que viviam e trabalhavam em condições terríveis, sem direitos ou segurança de qualquer espécie.
Por sua vez, a questão do preconceito a que os portugueses eram sujeitos aparece muito bem explorada na história de amor. Aquilo que Catherine diz, pensa e faz é uma descrição muito fiel sobre a forma como a generalidade dos franceses encaravam os portugueses, mesmo quando estes eram as pessoas mais esforçadas e bem sucedidas que lhes era permitido ser.
Menos bem conseguida é a história de amor entre Joaquim e Françoise, que apesar de bonita não deixa de ser previsível em quase todos os aspectos. Vale pela forma interessante e original como o casal se aproxima e se vai conhecendo (de maneira a não parecer forçado), e por dar pretexto às opiniões e as atitudes de Catherine em relação ao namoro.
“Longe do meu coração” peca apenas pela maneira como é escrito. É compreensível que Júlio Magalhães, cuja profissão assenta no português falado, tenha a tentação de passar essa oralidade para o papel, mas num livro exige-se um pouco mais de cuidado. Há erros que são indesculpáveis, seja o português escrito ou falado.
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Júlio Magalhães
Longe do meu coração
A Esfera dos Livros, 18€

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(C) Vieira da Silva

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