A implantação da República num olhar americano

As comemorações do centenário da implantação da República em Portugal motivaram uma onda editorial, mercê do interesse nem sempre são de muitos historiadores. A qualidade dos trabalhos produzidos e dados à estampa há-de ressentir-se desse afã, umas vezes tocado pelo republicanismo assolapado, outras pelo ódio vesgo de quem não soube ou não pôde entender uma inevitabilidade histórica, social e política – que culminou no 5 de Outubro de 1910.
Na verdade, os preconceitos políticos, nomeadamente estes, muito têm influenciado a escrita (e a reescrita) da história da Primeira República. O próprio Douglas L. Wheeler assinalou numa sua passagem por Lisboa, em 1978, que “os críticos mais pronunciadamente da extrema direita, quer portugueses quer estrangeiros, têm insinuado que a República não passou de uma conspiração maçónica”. E não hesitava em, por exemplo, citar a opinião de Marcello Caetano, que responsabilizou a “política religiosa inicialmente adoptada” pelo seu falhanço.
Já os escritores de esquerda, recordava Wheeler, acusavam os republicanos de 1910 de “terem sido demasiado fracos, demasiado lentos nas reformas e tímidos na materialização dos ideais”. Não faltam (nunca faltaram) os saudosos da monarquia, muitos convictos das virtudes do sistema, muitos feridos pela violência do regicídio, e outros apenas ressentidos com qualquer oportunidade que se dê ao povo – e a República cometeu esse pecado.
O autor deste livro é um homem informado sobre a nossa história: ele é professor jubilado da disciplina e membro do Grupo Internacional de Conferências sobre o Portugal Moderno. A sua bibliografia regista diversas obras, incluindo artigos, sobre o nosso país, como é o caso da ex-colónia Angola. E, senhor dessa sabedoria, teve funções de consultor no Departamento de Estado dos EUA sobre Portugal e África, em 1974 e 1976.
No prefácio desta edição, Wheeler homenageia as gerações de jovens historiadores portugueses que após 1974 “puderam gozar de liberdade académica para estudar o período de 1910 a 1926”. Apesar disso, ou por isso mesmo, recorda, “em 2008, no centenário do regicídio de 1908, como eco de memórias longínquas, o diálogo conduzido pelos meios de comunicação social e publicações, no que diz respeito à Primeira República, conheceram alguns momentos de tensão”. E isso porque “alguns académicos e jornalistas de quadrantes conservadores e monárquicos demonizaram a Primeira República e defenderam interpretações históricas que fizeram lembrar os argumentos da propaganda oficial do Estado Novo”.
O autor reconhece, a concluir, que a Primeira República foi a “primeira tentativa persistente de Portugal para estabelecer e manter uma Democracia Parlamentar”, fracassada pela incapacidade de “criar um sistema estável, completamente progressivo e duradouro”, prejudicado que foi pela “frequente violência pública, pela instabilidade política”, além da “falta de continuidade administrativa” e da impotência.
Ligação que fica para um passado mais recente, porque a “história raramente dá aos revolucionários a liberdade de escolherem os seus momentos de poder”. “Como os que fazem as coisas, os que as sonham têm de aproveitar a oportunidade quando ela aparece”, explica, para relacionar 1910 com 1974.

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Douglas L. Wheeler
História Política de Portugal – 1910-1926
Publicações Europa-América, 30,74€

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(C) Vieira da Silva

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