O cerco a Sarajevo e o despojamento da vida

O jornal inglês The Guardian classificou-o como “uma obra de mestre” e tem toda a razão. “O Violoncelo de Sarajevo”, de Steven Galloway, faz vibrar uma corda no mais íntimo do leitor, exacerbando sentimentos contraditórios e dando um outro sentido à vida e à morte.
Como só um cenário de guerra civil pode ser, Sarajevo em 1992 era uma cidade caótica onde se mata e morre a cada momento. Para a população, a luta é pela sobrevivência, indiferente já às razões que levaram à barbárie que diariamente presencia nas ruas outrora calmas e cosmopolitas, onde os dias se desenrolavam com um sentido: ir trabalhar ali, beber café acolá, jantar na casa de amigos lá mais à frente. Agora a geografia de Sarajevo é outra, bem diferente; é preciso mapear mentalmente a nova cidade, com a preocupação de fugir ao fogo cruzado entre os que estão nas montanhas e fazem pontaria aos sitiados, e os que estão no seu interior e respondem numa tentativa desesperada de defesa. Manter as rotinas torna-se uma forma de resistência.
E é neste cenário de “faroeste” que um músico recorda momentos de intimidade familiar (como quando o pai lhe punha a mão no ombro e ele sabia o quanto o amava), enquanto se obriga a pegar no violoncelo e a ensaiar como se houvesse espectáculo nessa noite. Quando sente uma reserva de energia e coragem suficiente, toca o “Adagio” de Albinoni (ele sabe que há um número limite de vezes em que conseguirá interpretá-lo), quanto lá em baixo, na rua, voam balas e granadas.
Mas há um dia em que sob os seus olhos um morteiro assassina 22 dos seus vizinhos, que se encontravam na fila para comprar pão. Pão, símbolo da sobrevivência agora transformado em símbolo de morte. Indiferente ao perigo, o violoncelista decide descer à rua durante 22 dias consecutivos, tantos quantos os mortos, exactamente à hora do rebentamento do morteiro, sentar-se no seu banco desmontável e tocar. Em memória dos mortos.
Rapidamente se torna um símbolo internacional – e um alvo a abater. Indiferente ao que se passa à sua volta, o violoncelista mantém esta rotina, desconhecendo que foi nomeada uma pessoa para protegê-lo. Trata-se de uma jovem atiradora, ex-campeã de tiro no tempo em que a vida tinha sentido e ela não fazia pontaria a cabeças de seres humanos.
Era um tempo em que um pai de família não se via obrigado a despedir-se dos seus e a arriscar a vida para ir à antiga fábrica buscar água, atravessando as ruas minadas e fugindo de franco-atiradores enquanto carrega garrafões de água como se fossem (e são) um bem precioso; nem um velho padeiro assistia à morte de transeuntes mesmo ao seu lado (receando que o tiro mortífero lhe tenha acertado), ao mesmo tempo que confidencia a uma antiga amiga as saudades da mulher e do filho, postos a salvo ainda a tempo; como essa amiga não sentiria ser seu dever solidário atravessar a cidade para levar medicamentos fora de prazo a uma desconhecida e acabar com um tiro no braço.
São relatos pungentes de pedaços de vida numa cidade que há muito perdeu a dimensão humana.
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Steven Galloway
O Violoncelo de Sarajevo
Editorial Presença, 12,12€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.