O comunista português do século XX

O sonho não morreu, Álvaro Cunhal deixou uma semente na terra do seu partido de sempre: o PCP. Como os seus biógrafos em geral sublinham e o autor desta biografia regista, “o PCP foi durante décadas o próprio Cunhal, mas Cunhal foi muito mais do que apenas o PCP”. O sonho não morreu, como deixou escrito num seu último desejo, em referência a todos os que quisessem comparecer no seu cortejo fúnebre, já lá vão mais de cinco anos.
O nome do comunista de notoriedade indiscutível mantém-se vivo, ainda alvo de adoração de uma grande parte dos comunistas (portugueses e certamente não só…), mas também centro da verrina e ódio de todos os que foram mais que adversários – quase sempre acabavam no extremo da tabela, como inimigos. Era inevitável dada a firmeza das convicções e rudeza do combate – campos literalmente opostos.
Seria preciso mais para que se lhe dedicasse o esforço e uma biografia pormenorizada, algo na verdade inexistente. O que tem aparecido tem mais a forma e conteúdo de ensaios, algumas biografias de ex-companheiros de luta, em muitos casos destemperados. O amor e admiração assolapados da maioria nem sempre girava nas suas relações quotidianas, ao que parece.
“Foi uma das maiores figuras políticas e intelectuais do século XX português e do movimento comunista internacional”, explica Adelino Cunha. Mas, acrescenta, manteve até ao fim a recusa de escrever ele próprio uma autobiografia, que porventura até ajudasse a esbater os possíveis detractores.
O biógrafo lembra ainda que o dirigente comunista “aprendeu a controlar instintivamente os mecanismos de comunicação com as massas e aperfeiçoou o seu domínio ao longo dos anos”.
Um procedimento que de resto aplicou ao próprio partido, apenas permitindo algumas revelações, em ambos os casos, quando isso correspondia a uma estratégia – política, diga-se.
A vida de Cunhal é aqui dissecada, numa estrutura narrativa visando claramente o grande público, de acesso fácil, não esquecendo as grandes questões que envolveram a sua vida, pessoal e política, mas não enveredando nem pelo panegírico nem pela tentação de ataque. Trata-se de seguir um percurso de vida, com as leituras que o seu rasto permite.
Do “Homem e o Mito”, que abre a obra, ao “Fim”, que lhe acompanha a retirada e morte, os capítulos procuram cobrir as várias fases de uma vida que foi longa, atribulada, fascinante, determinada, romântica. E enigmática, claro, tanto que basta para aguçar a curiosidade de muita gente.
Uma admiração que, recorda o autor, também foi exteriorizada por Jorge Amado, sob a forma de uma verdadeira elegia, após o encontro em Paris, no regresso de Cunhal de uma viagem à Jugoslávia e Moscovo. “O texto apologético foi amplamente divulgado durante a terceira prisão do dirigente comunista português e numa altura de intensa campanha nacional e internacional a favor da sua libertação”, recorda-se nesta autobiografia.
Um livro, pois, que permite ao grande público uma aproximação ao homem que conduziu o seu partido na longa resistência ao salazarismo, sem poder ou conseguir concretizar o sonho de inclinar no sentido das suas opções ideológicas e políticas os destinos de Portugal. Foi o fracasso final, onde já não teve fôlego para mais (Carlos Brito, numa sua recente obra, atribuiu-lhe sete fôlegos como resistente…), quando internacionalmente o comunismo ruía, internamente era contestado, e o futuro já lhe tinha passado ao lado.
Adelino Cunha reúne nesta obra os instrumentos que lhe são proporcionados pela sua carreira de jornalista, mais a formação académica, por via de licenciatura em História. O resultado está aí.
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Adelino Cunha
Álvaro Cunhal – Retrato pessoal e íntimo
A Esfera dos Livros, 30€

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(C) Vieira da Silva

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