O trabalho e as suas teorias sociológicas

No actual momento de crise económica e altas taxas de desemprego e precariedade laboral pode parecer quase irónico falar de trabalho, ou mais concretamente de Sociologia do Trabalho. Mas a verdade é que o conhecimento dos campos teóricos desta área especializada permite uma reflexão crítica sobre a actualidade – como aqui chegámos e porquê desta forma… em crise de emprego.
Como é óbvio, não faltam obras sobre Sociologia do Trabalho, quer de autores portugueses quer estrangeiros, de diferentes escolas teóricas e correntes conceptuais. Entre os livros que podem ser considerados manuais ou compêndios de introdução há um “clássico” fundamental, “Sociologia do Trabalho: Uma Introdução”, do sociólogo português João Freire. No entanto, é o livro do inglês Keith Grint, há algum tempo traduzido para português e publicado pelo Instituto Piaget, que agora se convoca para uma breve análise. As obras são muito semelhantes na organização, inclusive na fórmula de terminar os capítulos com pequenos resumos, questões/teste e a sugestão de leituras relacionadas. Refira-se, a propósito, que o livro de Grint é anterior ao de João Freire, tendo sido escrito inicialmente em 1987, mas profundamente actualizado pelo autor (aliás com um novo capítulo, dedicado à globalização do trabalho) e novamente publicado em 1998.
Em “Sociologia do Trabalho”, Keith Grint faz uma verdadeira viagem pelo mundo do trabalho, começando na complexa questão da sua definição: o que é o trabalho? Pode parecer uma questão retórica, mas como os estudiosos desta área sabem e quem ler o livro também ficará a saber, há uma enorme diferença entre trabalho e emprego ou, recorrendo à terminologia inglesa e à oposição utilizada por Hannah Arendt em “A Condição Humana”, entre “labor” e “work”: pode ser remunerado ou não remunerado; formal ou informal (clandestino); efectivo, a prazo ou temporário; a tempo inteiro ou parcial. Como também se faz a distinção entre trabalho e não trabalho (desemprego, doméstico, artístico) e entre trabalho e lazer.
“O trabalho ocupa uma proporção substancial da maior parte da vida das pessoas e foi muitas vezes visto como um símbolo de valor individual”, afirma Grint logo na introdução, referindo-se ao prestígio, recompensa económica, demonstração de fé religiosa e meios para a realização pessoal que o trabalho proporciona.
Como bússola a toda a obra, o autor tem algumas premissas, a começar na recusa de espartilhamento do trabalhador enquanto ser humano: “As esferas do trabalho, do emprego e da casa estão todas necessariamente unidas, e separá-las, como se pudessem existir de um modo independente, é ter uma ideia errada da realidade complexa do trabalho e não compreender o significado dos relacionamentos que envolve.”
Grint defende o trabalho enquanto construção e reconstrução social, na medida em que é contingente e requer acções perpétuas dos actores para a sua reprodução – e isto leva-nos a aceitar como verdadeiro e inevitável, tecnicamente exigido e economicamente determinado o que devia ser sujeito “às críticas mais vigorosas”. Logo, “eu argumento que os aspectos sociais e morais do trabalho continuam a ser um componente essencial”, frisa.
Muito interessante, ainda no que se refere às premissas, é o facto de o livro de Grint partir da hipótese de que o mundo do trabalho é activamente construído por actos interpretativos dos actores – o mesmo é dizer que se trata de um mundo “construído pela indeterminação, pela contingência e por pontos de vista alternativos”.
Depois, e ao longo de quase meio milhar de páginas, Keith Grint explora várias componentes desta área de estudo – tendo sempre a Grã-Bretanha como exemplo central –, nomeadamente a sua dimensão histórica em sociedades completamente diferentes, da época romana às fábricas de têxteis na Revolução Industrial. Detém-se no tipo de relações de trabalho estabelecidas antes e após o advento do capitalismo e analisa o aparecimento dos sindicatos e as várias fases por que tem passado o movimento sindical, bem como o papel do Estado ao longo do tempo, da “legislação operária” à desregulamentação da era global e da fragilidade dos Estados-nação.
Como não poderia deixar de ser, um capítulo é integralmente destinado aos três grandes teóricos: Marx, Weber e Durkheim.
A questão do trabalho das mulheres é igualmente abordada em vários capítulos, já que há uma enorme preocupação do autor em abordar e reflectir sobre as questões de género, raça e etnia no mercado de trabalho, nomeadamente no que diz respeito à discriminação (logo no recrutamento) e na actividade dos sindicatos face a ela.
Embora nem sempre seja possível estabelecer uma fronteira explícita entre passado e presente dada a fluidez dos fenómenos e a sua continuidade temporal ou transformação/reconversão noutro, a partir do capítulo 4 e até ao final do livro são as relações industriais contemporâneas que estão em análise e para as quais são tentadas explicações/interpretações.
Como não poderia deixar de ser, estão em causa questões como, por exemplo, classes sociais, estratificação, desigualdades, acção sindical e industrial, taylorismo e pós-taylorismo, revolução. Os principais problemas são apresentados e explicados à luz de teorias recentes como a das Culturas organizacionais, a da Contingência ou o pós-modernismo de Foucault.
Muito interessante face aos tempos que se atravessam, é o capítulo sobre a tecnologia no trabalho, que analisa fenómenos como o determinismo tecnológico e social e as sucessivas fases das relações industriais após a introdução da produção em massa em linhas de montagem, de que a Ford foi um paradigma, e as consequentes respostas ao mercado e às suas exigências, ou seja a especialização flexível – do fordismo ao neofordismo e ao pós-fordismo.
Por fim, a questão da globalização, precisamente o capítulo introduzido na revisão da obra uma década após a sua primeira versão, e que coloca interrogações ainda sem resposta. Desde logo, se o capitalismo é um sistema económico global e, “the last but not the least”, estamos perante o fim do trabalho?
“O trabalho não é algo objectivo, mas um conjunto de ideias, processos, modelos, padrões e mitos”, lembra Grint, para concluir: “A ideia exacta de trabalho, enquanto distinto de recreação, diversão, casa, etc., é uma invenção da Revolução Industrial e pode bem ser que nós precisemos de reconsiderar as suposições sobre o emprego – mas isto é um caminho que está longe de assumir que com a globalização finalmente começou o fim do trabalho – há simplesmente demasiado trabalho a fazer.”
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Keith Grint
Sociologia do Trabalho
Instituto Piaget, 25,74€

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(C) Vieira da Silva

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