Ricardo Gil Soeiro | Iminência do Encontro

1- De que trata este seu livro «Iminência do Encontro. George Steiner e a Leitura Responsável»?
R- A partir da obra Presenças Reais (1989) e de ensaios como “Uncommon Reader” ou “‘Critic’/‘Reader’”, o livro Iminência do Encontro procura examinar o conceito de leitura responsável apresentado pelo reputado crítico literário George Steiner. Com efeito, compulsando o pensamento de autores como Celan, Beckett, Heidegger, Derrida, Ricoeur e Caputo, esta obra parte em busca da insaciável demanda steineriana por uma poética do sentido, interrogando os alicerces éticos que a sustentam ao mesmo tempo que lança uma renovada luz sobre obras como A Morte da Tragédia, Linguagem e Silêncio, Depois de Babel, Antígonas ou Gramáticas da Criação.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Muito sumariamente, diria que uma das ideias fundamentais que percorre o livro é a da centralidade que o conceito de leitura assume no âmbito dos estudos humanísticos em geral e dos estudos literários em particular: o que significa ler um texto responsavelmente? Ora, esta questão para Steiner implica um elenco de outras interrogações que nos assaltam desassossegadamente: como compulsar uma fenomenologia do encontro no âmbito do nosso confronto com a obra de arte? Será que podemos falar de Sentido num tempo de epílogo (isto é, um tempo que vem depois do Logos)? Como falar de uma poética do sentido e de uma aposta na transcendência quando estamos perante uma teoria da cultura clássica que desmoronou perante a magnitude dos horrores do século XX (obviamente ouvem-se aqui os ecos da tematização steineriana em torno do holocausto, da Shoah) e quando as teorias actuais nos falam de uma poética da ausência (nomeadamente a teoria da desconstrução de Derrida)? São estas problemáticas que são aqui tacteadas e não deixa de ser curioso que Alexis Philonenko tenha advogado, num estudo sobre Steiner, que três das mais importantes obras de Steiner poderão ser lidas ou perspectivadas à luz das três perguntas que Kant formula na sua Crítica da Razão Pura e que, em última análise, sintetizam a magna pergunta: “O que é o homem?” A obra Depois de Babel é associada à pergunta “Que posso saber?”, a Antígonas é associada a pergunta “Que devo fazer?” e a Presenças Reais a pergunta “O que me é permitido esperar?” Isto leva-me a um dos tópicos que, tacitamente, serviu de fio condutor secreto à minha reflexão em torno da Iminência do Encontro (e estou convencido que os leitores serão sensíveis a ele): falo do tema da esperança, que Nietzsche caracterizou como sendo o pior dos males da existência, mas que em Steiner é sempre uma matéria bastante complexa, em que se entrelaçam cintilantes anseios plenos de aspiração ética e estética e sombrias inquietações em torno do destino da arte e da condição humana.

3-Para um leitor que não conheça George Steiner, qual o percurso de leituras que recomenda?
R- A minha primeira sugestão seria a leitura de Errata (1997), uma espécie de autobiografia intelectual, onde Steiner se debruça de um modo simultaneamente desprendido e apaixonado sobre algumas das temáticas que marcaram presença no seu itinerário intelectual e humano: a importância dos clássicos, a temática da tradução como milagre de Babel, o enigma da música, a transcendência da obra de arte, a filosofia heideggeriana ou a tragédia. Todas estas temáticas dialogam entre si, interpenetrando-se vertiginosamente. Nesse sentido, estou em crer que esta obra em particular poderia constituir um excelente ponto de partida para a entrada no universo steineriano: é, no fundo, uma cartografia mental e afectiva de Steiner, um espelho de obsessões intelectuais e literárias, enfim, um roteiro de um percurso (de uma “passagem”, na formulação cintilante de Walter Benjamin). Por outro lado, a colectânea de 1984, aptamente intitulada George Steiner: A Reader, poderia ser um pórtico privilegiado para um informado entendimento da constelação de conceitos e de teorias que vertebram o pensamento steineriano: de resto, é curioso atentar nos próprios títulos que estruturam essa colectânea (sendo que o trocadilho com o vocábulo reader me parece ser deliberado, na medida em que não se trata apenas de uma antologia de ensaios representativa da obra de um autor, antes apontando igualmente para a centralidade que o conceito de leitura assume para Steiner): “The Critical Act”, “Readings”, “Obsessions”, “Matters German”, “Language and Culture”, constituem pistas e veredas determinantes para ajudar a construir um itinerário intelectual de preocupações de interesses de vária ordem. Posteriormente, para quem pretenda adensar o seu estudo da obra deste pensador, haveria que assinalar a importância de obras como Presenças Reais (1989), Antígonas (1984), Depois de Babel (1975) ou Paixão Intacta (1996). Claro que importaria não perder de vista os textos iniciais e que constituíram o enquadramento teórico e crítico que viria a sustentar a evolução ulterior do seu pensamento: Tolstoi e Dostoievski (1959), A Morte da Tragédia (1961), Linguagem e Silêncio (1967) ou No Castelo do Barba Azul (1971). Por fim, para o leitor interessado, as obras mais recentes poderiam perfeitamente constituir matéria estimulante de leitura, nomeadamente Gramáticas da Criação (2001), Lições dos Mestres (2003), Nostalgia do Absoluto (2004), Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento (2005) e Os Livros Que Não Escrevi (2008).
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Ricardo Gil Soeiro
Iminência do Encontro. George Steiner e a Leitura Responsável
Roma Editora

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