A memória como alerta

O ditador continua a «vender». Sinais dos tempos, dir-se-á. Mas o fenómeno é de sempre, Hitler teve numerosos seguidores, a Alemanha foi atrás dele, outros povos o desejaram e o escolheram como modelo. O “Mein Kampf” (“A Minha Luta”), aqui feito motivo de estudo, vendeu muito, ainda o autor não tinha subido ao poder. Adolfo Hitler aproveitou uma «folga» na prisão para escrever, na verdade para ordenar as suas ideias, porque foi lendo, escolhendo os autores que lhe suportavam e fundamentavam as opções políticas, que o ajudavam a validar as suas conhecidas ideias: ódio aos judeus, mas também aos comunistas, ao estrangeiro. E foi por essa actividade de escrita que lhe consolidou o prestígio, que ele se arrogou a inscrição para efeitos fiscais como sendo escritor. Escritor?, perguntamo-nos. Bem, ele matraqueava na sua máquina de escrever Remington (curiosamente, foi-lhe oferecida por Emil Georg, director do Deutsche Bank, um dos principais contribuintes do partido de Hitler), depois lia em voz alta para ser elogiado pelos seus próximos. Rudolf Hess e Emil Maurice, esses, por vezes dactilografavam à medida que ele ditava. Escritor, pois. Propondo a análise do “Mein Kampf”, o autor deste estudo sublinha que este «não é simplesmente um livro alemão». E isso porque logo na década em que foi publicado pela primeira vez, a de 30 do século passado, foi traduzido em vinte idiomas e tornou-se um best-seller mundial. Calcule-se a apetência que ia por esse mundo fora, não só para projectos editoriais, mas também no ódio ao outro, ao novo, aos não arianos! Na verdade, não era só (n)a Alemanha… Ainda assim, com essa procura espontânea, o partido de extrema-direita em que Hitler pontificava investiu numa campanha publicitária/propagandística por altura do Natal de 1925, apresentando o livro de Hitler como «o melhor presente de Natal». Mais, com grande sentido comercial e alta jactância: «Todos os alemães que se interessem pela política devem conhecer o seu adversário. (…) Conheces Adolfo Hitler?» Isto é, se não conheces compra o livro… até talvez te convertas… E muitos se converteram, ou já seriam assim? Tentado a saber o que de facto pensava o do bigodinho? Bem, cuidado, as coisas podem repetir-se. Recorda o autor que «o fascismo aninhou-se nas falhas da democracia». Quer isto dizer que pôs a cabeça de fora e ganhou a rua na Alemanha democrática dos anos 30 do século XX. «É por isso que o “Mein Kampf” relembra às nações civilizadas que o triunfo das ideias democráticas não preserva retornos». Pois é. Estamos em democracia… __________
Antoine Vitkine
Mein Kampf, História de um Livro
Publicações Europa-América, 22,90€

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(C) Vieira da Silva

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