Helena Trindade Lopes: "É difícil resistir ao fascínio do Egipto Antigo"


Confessadamente apaixonada pelo Egipto Antigo, que considera ser também o seu mundo, a historiadora decidiu concretizar um sonho antigo e aventurar-se na ficção. O resultado chegou agora às livrarias: “A Mulher que Amou o Faraó”, a sua estreia literária e o primeiro romance de uma trilogia a que quer dar corpo. Mantendo o rigor histórico, a egiptóloga socorre-se da liberdade da ficção para contar uma história de amor plena de erotismo e sensualidade. Porque, como diz Ísis no romance, “Amar é uma arte”.
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P – O que leva uma historiadora, habituada a publicar trabalhos científicos, a aventurar-se pela ficção?
R – A historiadora achou que era tempo de dar corpo a outro dos seus sonhos mais antigos. A vida é feita de tempos. E agora era o tempo de me encontrar sozinha nas palavras.

P – Considerou estar na posse de muita informação, que não sendo utilizada no trabalho académico, poderia ser interessante para um romance?
R – Considerei, sobretudo, que agora tinha a liberdade para poder criar, para poder cruzar silêncios com ruídos, o que nem sempre é possível no rigoroso trabalho científico. Naturalmente que a informação acumulada por muitos anos de estudo e, principalmente, a reflexão sobre essa mesma informação, permitiu-me viajar pelo Egipto Antigo sem qualquer tipo de dificuldade ou constrangimento. Aquele é também o meu mundo, com um imaginário riquíssimo e muito envolvente. É difícil resistir ao fascínio do Egipto Antigo. Ele é intemporal e transversal. Que o digam Mozart, Goethe, Rilke, Thomas Mann, Joyce ou Picasso. Surpreendente, não é?

P – Por que optou por contar uma história de amor, com uma tão forte carga erótica? Isso corresponde, de alguma forma, ao conhecimento que tem sobre a vida e os costumes egípcios no período em que situa a sua ficção?
R – Optei por contar uma história de amor porque considero que o amor é a coisa mais importante da vida. Qualquer tipo de amor. O amor entre amantes ou entre amigos, que nós vulgarmente designamos como amizade, mas que também é amor. O amor alimenta o corpo e a alma. E no Egipto Antigo o amor exprimia-se e vivia-se de uma forma muito sensual, muito erótica. Não podemos esquecer-nos que quando falamos do Egipto falamos de África e África é também isso, a sensualidade dos corpos que se descobrem com malícia... O calor apela, naturalmente, a uma outra forma de estar e de ser com o corpo. E a paisagem do deserto, aliada à luxuriante vegetação que crescia junto às margens do rio, conduziu instintivamente os homens e as mulheres egípcias a uma determinada forma de expressar os afectos. Podemos dizer que a geografia, o clima e a mitologia “estimularam” a sensualidade das mulheres e dos homens que cresceram no Vale do Nilo. Hathor, a deusa do amor, das festas e das bebedeiras era uma personagem muito erótica e determinante no imaginário feminino e masculino desta civilização. “Amar é uma arte” – diz Ísis, no romance.

P – Tratando-se de uma obra de ficção teve, no entanto, preocupação em respeitar a verdade histórica?
R – Naturalmente, nem podia ser de outra forma. A minha liberdade jogou-se exclusivamente na criação das personagens ficcionadas como Ísis, por exemplo, e estendeu-se ainda àquelas zonas obscuras da história que ninguém conhece... Por exemplo, não se sabe o que aconteceu realmente a Nefertiti. Podemos datar, com alguma precisão, a data do seu desaparecimento da corte em Akhetaton, mas nada mais... Ora eu explorei exactamente esse tipo de situações. Criei uma possibilidade... Fi-lo com Nefertiti e voltei a fazê-lo com Akhenaton. Como romancista posso fazê-lo, como egiptóloga seria mais recatada... E esta é a grande liberdade da ficção!

P – Por que escolheu o reinado do faraó Amenhotep IV? Por considerar mais fascinante ou por, de alguma forma, estar ligado ao seu trabalho enquanto arqueóloga?
R – Escolhi o reinado de Amenhotep IV por duas razões distintas, mas complementares. A primeira prende-se com a originalidade deste período absolutamente único na história do Egipto faraónico. Amenhotep IV ou Akhenaton foi verdadeiramente revolucionário nas propostas que formulou para o seu tempo histórico: a criação de uma nova capital numa zona desértica e virgem de deuses ou de história, para deste modo poder “começar” verdadeiramente uma nova narrativa histórica; a abolição dos cultos tradicionais aos deuses ancestrais e a formulação de uma nova religião baseada na crença num deus único, exclusivo, mas ecuménico, Aton, o disco solar; a consolidação do Império através da união de todos os povos à volta da crença neste deus ecuménico e, finalmente, a ruptura com os cânones de representação artística vigentes até ao seu reinado. Este rei que alguns consideram um visionário e outros um insensato marcou, no entanto, não só a história da sua dinastia, a mais importante do Império Novo, como também toda a história posterior. As reformas de Akhenaton alteraram profundamente a face do Egipto e até do mundo. A tradição monoteísta mais tarde formulada pelos hebreus tem aqui o seu paradigma, o seu arquétipo. Como vê, eu não podia deixar de aproveitar tudo isto. Mesmo como egiptóloga nunca resisti ao fascínio e ao apelo de Akhenaton. A segunda razão prende-se com o facto de este livro ser pensado como o primeiro de três e, nesse sentido, eu precisava de ter balizas históricas consistentes e aliciantes para apoiar a acção que se vai desenrolando no tempo.

P – O que mais a fascina nesse período da História do Egipto Antigo?
R – A atitude “revolucionária” de Akhenaton. Mesmo como historiadora sempre me fascinaram mais as figuras de contra corrente do que as alinhadas ou mesmo muito alinhadas. Mas isto, atenção, é uma questão de atitude ou sensibilidade pessoal. Acho absolutamente notável um homem, neste caso um rei, ter o atrevimento de “apagar” o passado a fim de reescrever a história. Um homem que é capaz de afrontar tudo e todos tem os contornos que eu admiro em qualquer personagem: a força, a determinação, a capacidade para suscitar grandes amores e grandes ódios.

P – Optou por uma narrativa que decorre simultaneamente em dois momentos espacio-temporais. Porquê?
R – Aí foi a escritora. Eu quero ser uma grande escritora. Este é o meu primeiro romance, e considero que tem algumas páginas brilhantes e que me enchem de orgulho quando as releio e outras menos conseguidas, mais “indolentes”. A narrativa à medida que se desenrola vai fluindo e simultaneamente vai ganhando textura. A parte final do livro é forte e marcante. Considero que a escrita tem de ter musicalidade e uma poesia, ou não... mas a minha escrita tem poesia, pois essa sou eu. Repare, eu sou uma leitora compulsiva desde os 11 anos. As minhas grandes referências em termos literários, para além dos clássicos que não preciso de citar, são Yourcenar, Duras, Roth, ai como eu gostaria de conseguir a crueza de Roth, e Cunningham. Eu não podia fazer o meu primeiro romance com uma narrativa linear, percebe? Eu precisava de mostrar que era capaz de dominar uma técnica mais complexa, mas que não fosse demasiado complexa para o leitor comum. Atenção que não é fácil, mas isso eu sei que consegui.

P – Tratando-se de uma ficção centrada num momento preciso da História, não decidiu escrever um romance histórico, na verdadeira acepção da definição. Porquê, sendo historiadora e sabendo-se, reconhecidamente, da preferência dos leitores portugueses por esse tipo de livro?
R – Sabe, o romance histórico, na verdadeira acepção da palavra, como refere, não era bem aquilo que “este tempo” me pedia.

P – Acha que os portugueses têm uma especial apetência por histórias sobre o Egipto Antigo?
R – Não sei. Vamos ver. Como docente e investigadora sei que a maioria das pessoas tem um grande fascínio pelo Egipto Antigo. Vejamos se esse fascínio se traduz na capacidade para ler um livro. Sabe certamente melhor do que eu que, hoje em dia, é tudo muito mediatizado. É fundamental aparecer, ser falado... São tempos apressados estes em que vivemos!

P – Que balanço faz desta sua experiência?
R – Foi uma experiência absolutamente única e maravilhosa. Sabe, a solidão da escrita é muito purificadora e, depois, este era um sonho adiado. Como eu disse ao iniciar, “nas palavras me encontro sozinha”.

P – “A Mulher que Amou o Faraó” foi uma experiência isolada ou tem intenções de continuar a escrever ficção?
R – Como já desvendei atrás este é o primeiro de uma trilogia. Uma das personagens desta obra será a protagonista do próximo romance.

P – Está já a trabalhar no novo livro?
R – Estou a fazer o “esqueleto” do próximo romance. É assim que eu trabalho. Esta é a historiadora. O método. Depois de tudo arrumadinho, bem definido, bem situado no tempo e contextualizado, então sim... podemos iniciar a viagem. E posso garantir que o próximo volume será um grande romance. Akhenaton voltará a ser lembrado, por diferentes personagens e por diferentes razões. Mas o herói da história será outro. E a personagem principal, a narradora, voltará a ser uma mulher. Uma mulher com uma história ainda mais dramática e aventureira do que Ísis. Conseguem imaginar? Eu consigo.
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Helena Trindade Lopes
A Mulher que Amou o Faraó

A Esfera dos Livros, 19€

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