Dar de beber à dor

Pois não se admirem que se repesque um guia com quase um ano de publicação. Nos tempos que correm, de grande aceleração como dizem os modernaços, não podemos estar a referir mais do que uma antiguidade. Mas, calma, que tudo envelhece, e os vinhos não escapam à regra. Só que os vinhos até ganham, quando ganham, com uns anitos. E se for antiguidade!...
Falemos do guia, então, que não tardarão as outonais feiras de vinhos (e um guia para o ano que vem), para escoar sobras, desfazer/aliviar passivos dos produtores e dar aos consumidores a ilusão de que estão a fazer grandes compras – e isso é possível. Claro que este ano já os preços poderão estar sobrecarregados de IVA, e sabe-se lá até onde terá ido a perfídia dos troikistas e seus correligionários.
A verdade é que em tempos de tanta turbulência psico-financeira, no antecipar pode estar o ganho. Ou seja, se também o 13º mês está a caminho da usura financeira internacional e nacional (sim, devíamos ter sido mais poupadinhos, por exemplo nos vinhos…), ainda podemos atalhar o mal maior que é, em vésperas do menino se esparramar nas palhinhas, estarmos todos a chuchar nos dedos – sem vinho que se beba, sem peru que cumpra o papel, e sem que se vislumbre o pagamento ao senhor do fraque.
Dando como certo que ainda teremos as tais promoções, o livrinho que aqui se recomenda está precisamente na senda das poupanças. Que mais se pode dizer ao cidadão apavorado pelos políticos, torturado pelo horizonte dos preços, amassado pelo diabo, do que: «Veja lá o que pode economizar…» Sim, o objectivo do crítico de vinhos (mais dois da sua confiança) é dar-nos as dicas para compras aceitáveis sem inviabilizar a salvação da pátria. Porque é tudo nacional, da nossa lavra e lavradores como gosta o outro de dizer. Já dizia a velha senhora que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses…
As propostas vão no sentido de proporcionar boas compras a preços encantadores, por dois patamares: entre os 2 e os 5 euros, e entre os 5 e os 10. Explica Aníbal Coutinho que «o preço máximo de 5 euros possibilita uma escolha muito ampla e uma qualidade boa, por vezes muito boa». E no nível seguinte, até aos 10 euros, já há «uma excelente oferta de vinhos a este preço na moderna distribuição».
Recomenda, no entanto, que recusemos comprar a menos de 2 euros, em nome da dignificação dos vinhos. Às vezes o barato sai caro, além do mais não se sabe qual a matéria-prima que proporciona tais deslizes nos preços. Lembram-se do que se dizia a respeito de um certo produtor de vinhos quando argumentava que se faz vinho de tudo, até de água? Isto acontece em muitos produtos.
Além do mais, pelo preço do livro e da catalogação das provas feitas, o leitor ainda tem direito a explicações várias sobre a produção do vinho em Portugal, as zonas, as castas… E até algumas dicas sobre o que os conhecedores chamam «maridagem». Ou seja, com que vinho casar o que está em vista nas viandas.
Pronto, talvez não tenha sido tempo perdido. O problema é se com umas compras de vinhos, ainda que a bom preço, vamos encostar Lisboa a Atenas…
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Aníbal Coutinho (com Michael Olivier e Neil Pendock)
Guia Popular de Vinhos 2011 – As melhores escolhas entre 2 e 10 euros no supermercado
Editorial Presença, 10€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.