Luís Maia | Educar sem Bater


1-De que trata este seu livro “Educar sem Bater”?
R-O livro pretende mostrar que a aplicação de métodos suportados na Disciplina Positiva é a forma mais eficaz de educar as crianças. As principais estratégias baseiam-se no Amor firme, o estabelecimento de limites bem conhecidos entre pais e filhos (não se defende permissividade, nem se coloca em causa que pais e filhos devam ser os melhores amigos, todavia, no processo de desenvolvimento infanto-juvenil, a responsabilidade de educar é dos pais e por isso a amizade e o carinho devem passar-se para a relação dos afectos, mas manter-se a firmeza na regulação e implementação das regras, que não podem de forma alguma ser quebradas. Em termos disciplinares, as estratégias que mais funcionam são os reforços positivos dos bons comportamentos e os reforços negativos quando a criança consegue interromper comportamentos inadequados. A ideia central não é mimar a criança, mas sim dotá-la de ferramentas de auto-regulação do seu próprio comportamento, de forma positiva, afectuosa e tranquila.
Há ainda uma questão central que se relaciona com o papel do exemplo dos pais. Pelos mecanismos de Aprendizagem Social, uma criança aprende, essencialmente nos primeiros anos de vida, através da imitação dos comportamentos dos seus modelos, que na maioria das vezes são os pais. Assim, a disciplina positiva centra-se muito também num esforço de psico - educação de pais e educadores para serem eles próprios exemplos de “boa conduta” para os seus filhos.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Julgo que o ponto de partida, quando os conflitos já ultrapassam o que deveria ser minimamente aceitável como “conflito comum” é procurar uma base de segurança para se iniciar uma nova forma de comunicação familiar (a ideia é que se os conflitos chegaram a um nível disfuncional, não se deve manter o mesmo nível de comunicação familiar que os levou a esse mesmo ponto.
Assim, algumas famílias conseguem organizar-se sem apoio de técnicos especializados no sentido de melhorar os canais de comunicação familiar. Outras necessitam mesmo de recorrer a terapeutas especializados que permitem, numa primeira fase, funcionar como força de desbloqueio comunicacional.
Grande parte dos conflitos familiares assenta numa comunicação insuficiente e mergulhada em vícios de forma: evitar assuntos críticos, criar tabus, delegar assuntos relevantes para um dos pais (como por exemplo, a sexualidade ser abordada pela mãe se a criança for uma menina e pelo pai se for um rapaz, etc.).
O que eu sugiro é que a comunicação seja a palavra de ordem no equilíbrio relacional familiar, desde que se respeitem as vontades e o direito à intimidade individualidade de cada um dos envolvidos.

3-O seu livro destina-se, claramente, a pais e educadores: o que lhes recomenda para as suas múltiplas tarefas de educar sem bater?
R- Esta é uma das questões mais recorrentes que me são colocadas. Se repararem, a própria questão parece remeter para o facto de não haver outras formas de controlar o comportamento infantil que não seja pela disciplina punitiva ou mesmo os castigos. Nem mesmo é necessário cair na permissividade. Com o tempo, com a minha experiência como pai e terapeuta, aprendi a dividir as estratégias educativas em duas grandes partes: as destrutivas e as construtivas. Nas destrutivas estão toda a gama de castigos já aqui referidos, bem como a indiferença, a permissividade, etc. Nas construtivas estão as estratégias defendidas nesta obra (Educar Sem Bater), que apostam na disciplina positiva. Já repararam que, na maioria das vezes, quando se diz que um filho tem que ser disciplinado, pensa-se imediatamente em castigos? O que eu pergunto é: porque é que tem que ser assim? A disciplina é o método pelo qual uma criança interioriza os valores, princípios e regras com os quais tem que contar para lidar adequadamente em sociedade. Um pai que não consiga encontrar uma forma de ensinar isso aos filhos sem ser permissivo ou agressivo deve, na minha humilde opinião, procurar ajuda de um técnico especializado!
No que toca ao estabelecimento de limites, não pode haver uma resposta única a esta pergunta. Qual o limite para deixar uma criança “esticar a corda” no sentido da conquista do seu espaço? Qual o limite para aceitar que uma criança experimente “coisas” com que os pais não concordam plenamente? Qual o limite para que a criança se coloque em situações de risco de sofrer pequenos ferimentos e com isso aprenda que da próxima vez não deva se colocar nas mesmas condições?
A resposta está no bom senso dos pais. Ajudar a criar não é superproteger para evitar a todo o custo que a criança possa sofrer ou magoar-se. Antes sim é permitir um crescimento autónomo onde a criança experimenta os seus próprios limites, supervisionados pelos pais, e perceba quais são os que são edificantes para a sua personalidade e aqueles que são ameaçadores e por isso deve evitar.
Para finalizar, refiro que as principais estratégias educativas actuais baseiam-se no conceito de “Auto – Regulação”. A criança deve ser incentivada a aprender quais as suas capacidades de se auto regular: ou seja, dizer sim ou não, de acordo com aquilo que conseguem interpretar adequadamente da realidade à sua volta, e não apenas reagir de forma acéfala, impulsionada pelos seus impulsos mais primitivos e pueris. À medida que a criança se vai desenvolvendo como indivíduo, vai sendo capaz de decidir por si própria e, muito importante, arcar com as consequências das suas escolhas. Assim, os pais e educadores devem incentivar a capacidade de autonomia, decisão, auto-regulação e gestão das consequências das opções, atitudes e acções de cada criança.
Termino dizendo mesmo: Os pais e educadores têm que voltar a saber dizer NÃO!
Eu diria mesmo que uma criança deve ser educada para que a criança saiba que a resposta para um seu desejo seja SIM e a resposta para outro desejo seja NÃO. O aprender a lidar com os “Nãos” que os pais e a vida vão apresentando às crianças vão-na fortalecendo e desenvolvendo uma característica humana que se pretende desenvolver numa criança: a capacidade de resistência à frustração, que representa justamente a necessidade de a criança ir-se desenvolvendo a saber que há “coisas” que quereria ter ou fazer, mas que não pode ter ou fazer. Isso desenvolve maturidade e capacidade de sofrimento. Mais tarde, como adulto, será fundamental para aceitar as coisas que tem que fazer por obrigação, ou por necessidade, ou porque num dia simplesmente não tem vontade de fazer, mas que não pode balizar a sua vida pela sua vontade ou não de fazer. Assim, o Não, é fundamental para a construção de um “EU” que aceita que a vida não gira à volta da vontade de cada indivíduo e é necessário muito sacrifício para a satisfação das necessidades e vontades individuais.
__________
Luís Maia
Educar sem Bater-Um Guia Prático para Pais e Educadores

Lidel, 17,50€

Siga a "Novos Livros" por Email

A BIBLIOTECA

A BIBLIOTECA
(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.