O jogo da política atómica

O grande conflito internacional da actualidade é, talvez, a crise económico-financeira. Talvez porque conflito é o que não falta, em fogo lento ou de maior ou menor visibilidade, com mais ou menos atentados e mortos, plausível ou não nas justificações. Tem sido assim, de crispação em crispação, até às grandes explosões de violência, quase sempre envolvendo os norte-americanos – e a sua vontade de influenciarem e determinarem o curso da política, da economia, da cultura e sabe-se lá que mais, a nível global.
“A era da mentira”, assim lhe chamou Mohamed ElBaradai, ex-director-geral da Agência Internacional da Energia Atómica, prémio Nobel da Paz em 2005, e personalidade política emergente no Egipto da “revolução de jasmim”, com intervenções públicas no sentido de fazer triunfar a democracia e dar um sentido ao seu país de nascimento com a candidatura à presidência do país. E ao título do livro junta-se a explicação de que aqui se trata de “a verdade escondida sobre os grandes conflitos internacionais”.
O que tem ElBaradei a dizer-nos sobre esses jogos de sombras e/ou ocultações em que ele foi agente activo, por vezes hostilizado (sobretudo pelos Estados Unidos da América, e o de Bush em particular), as ameaças de intervenções, as acusações de arsenais atómicos sem sentido, e até a intervenção no Iraque em que as provas foram indecorosamente forjadas e serviram de justificação para todas as agressões e arbitrariedades?
Este conflito do Iraque, lançado em 2002 com a justificação da ameaça terrorista que o 11 de Setembro teria exemplificado, é um dos que se mantêm em fogo declarado, por vezes com grandes erupções de violência. É um dos testemunhos desse afã intervencionista na cena internacional, que alimenta a economia americana e garante largos rendimentos à finança, também a internacional. Aliás, neste caso, não faltaram as denúncias de negociatas envolvendo altos cargos da própria administração Bush.
O caso iraquiano, relembra ElBraradei, é uma história longa, que ele investigou com a AIEA, logo em 1991, para concluir em 1998 numa acção que classificou como de desmascaramento de um programa escondido. Um trabalho que terminou com a elaboração de um documento por parte de um elemento de outra agência (a UNSCOM, uma Comissão Especial das Nações Unidas, de missão paralela à oficial AEIA, acusada ou suspeita de colaboração e/ou obediência à CIA).
E foi esse documento, elaborado por Richard Buttler, que segundo ElBaradei se tornou a “justificação para a campanha de bombardeamento levada a cabo pelos Estados Unidos conhecida como ‘Operação Raposa do Deserto’, em 1998”. Com uma pressa enorme, segundo a descrição do ex-director-geral. Ao ponto de ter recebido um telefonema do embaixador norte-americano junto da AEIA, para que retirasse os inspectores ainda presentes no Iraque. E a “campanha de quatro dias de bombardeamentos começou de imediato”.
A denúncia de todos estes procedimentos, em que a agência, segundo ElBaradei, procurava conduzir as investigações da forma mais correcta e proveitosa, mas era confrontada com as mais diversas dificuldades e obstáculos, é uma das várias justificações para uma recomendação de leitura atenta. Permitirá conhecer melhor os meandros das velhacarias e conjuras internacionais, de elevados rendimentos para quem todos sabem.
Quem se admirará, pois, que os presentes conflitos, económicos ou outros, estejam ao serviço das mesmas forças? Por que arde (agora) a cintura norte-africana do Mediterrâneo? Os ditames democráticos descobriram subitamente a sucessão de ditaduras que tão afincadamente encobriram ou estimularam ao longo de décadas?
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Mohamed ElBaradei
A era da mentira – A verdade escondida sobre os grandes conflitos internacionais
Matéria-Prima Edições, 20€

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(C) Vieira da Silva

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