O sindicalismo na sociedade actual

Os anos recentes têm sido pródigos na demonstração de que não há soluções feitas por medida para os tempos que vivemos. Há muito que se tornou prática criticar os sindicatos acusando-os de tudo um pouco, desde defenderem apenas determinados grupos de assalariados a não defenderem de todo os interesses dos trabalhadores – num discurso com um propósito marcadamente ideológico. Em contrapartida, e com a mesma leveza simplista com que se critica os sindicatos, tecem-se elogios ao capitalismo neoliberal que nos conduziu à actual crise financeira e económica de que ninguém parece saber como sair. Vem isto a propósito de um livro recentemente editado (em Junho deste ano) e que é uma reflexão a várias vozes sobre o sindicalismo em Portugal. Organizado pelos sociólogos Elísio Estanque e Hermes Augusto Costa, professores da Universidade de Coimbra e investigadores do seu Centro de Estudos Sociais (CES), intitula-se “O Sindicalismo Português e a Nova Questão Social – crise ou renovação?”.
Como explicam os organizadores, o livro é o resultado de um seminário realizado na Universidade de Coimbra em Janeiro de 2008 no âmbito dos programas de Mestrado e Doutoramento em “Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo”.
O livro dá conta das intervenções havidas no debate que decorreu durante o seminário, em que se destaca a participação de sindicalistas das duas centrais sindicais. A pluralidade de intervenções possibilita uma visão ampla e diversificada sobre o que pensam os principais actores sobre o papel do sindicalismo na sociedade, os seus méritos, problemas e desafios.
Em “O sindicalismo visto pelos sindicalistas”, que preenche toda a segunda parte do livro, intervêm Eduardo Chagas (“Problemas e desafios no sector dos transportes”), Carlos Silva (“O sindicalismo de proposição no sector bancário”) e os secretários-gerais da UGT e da CGTP, respectivamente João Proença (“A necessária humanização das relações de trabalho”) e Manuel Carvalho da Silva (“Em reforço da centralidade do trabalho”).
O último capítulo da II parte reflecte o debate do público com os sindicalistas, em que merece destaque um conjunto de perguntas pertinentes colocadas por alguns dos alunos presentes – e as respectivas respostas.
Embora esta seja a mais-valia do livro, este não se fica apenas pelo relato das intervenções sindicais e do debate. Para quem se interessa por esta problemática e quer aprofundar um pouco as suas bases teóricas, os dois capítulos da primeira parte podem ser um contributo importante. Hermes Augusto Costa faz uma interessante abordagem em “Do enquadramento teórico do sindicalismo às respostas pragmáticas”, nomeadamente no que diz respeito às “distintas classificações ou significados” de sindicato enquanto objecto de estudo: como “parte de um movimento social”, como “instituições do mercado de trabalho” e como “grupos de interesses” nas democracias políticas. Do mesmo modo, analisa as várias teorias e conceitos e tipologias do sindicalismo, detendo-se em pormenor no paradigma do movimento social, terminando com uma reflexão sobre “questões para o presente (e futuro) do sindicalismo”.
Por sua vez, Elísio Estanque retoma uma abordagem que lhe é cara e que tem desenvolvido em diversos artigos científicos: o sindicalismo e a acção sindical em tempo de crise e num contexto de globalização, quando o trabalho está fragmentado, os direitos laborais e sociais são reduzidos e o risco e a insegurança aumentam exponencialmente.
“O Sindicalismo Português e a Nova Questão Social – crise ou renovação?” merece uma leitura atenta e, sobretudo, uma posterior reflexão… com coragem.
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Elísio Estanque e Hermes Augusto Costa (orgs.)
O Sindicalismo Português e a Nova Questão Social – crise ou renovação?
Almedina, 11€

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