Diga não ao cruel comércio da morte.

Uma saga familiar dos tempos modernos

Katherine Pancol está de regresso ao contacto com os leitores portugueses. Depois do sucesso de “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, o segundo volume da trilogia sobre a saga da família Cortès era aguardado com expectativa – e “A Valsa Lenta das Tartarugas” não desilude os fãs da escritora.
Neste seu segundo romance, Pancol mantém a vivacidade da escrita e uma prodigiosa criatividade, embora por vezes se deixe arrebatar excessivamente e a trama perca um pouco a crua lucidez da realidade que tornou o primeiro volume tão verosímil e fácil a identificação do leitor com alguma das personagens.
Em “A Valsa Lenta das Tartarugas”, Joséphine e as filhas deixaram já os subúrbios e vivem agora num luxuoso bairro parisiense. Uma mudança que implica, mais do que uma deslocação geográfica, uma alteração social para que Jo, com toda a sua simplicidade, princípios e valores, não está preparada. Como também não o está para aparar o embate de uma Hortense cada vez mais fria e distante (agora a estudar moda em Londres) ou as dores de crescimento de Zoé, que é já uma rapariguinha a entrar na adolescência. Jo terá ainda de se confrontar com um amor que afinal não é tão idílico como sonhou e o nascimento de um sentimento muito forte por alguém de quem quer, a todo o custo, afastar-se.
Regressam também as restantes personagens do livro anterior, com os defeitos e virtudes que se lhes conhece – a irmã Íris cada vez mais absurdamente egoísta, a mãe insuportavelmente maldosa, o padrasto e a amante, até o ex-marido parece ter ressuscitado… –, mas Pancol adiciona muitas mais a este novo romance, cerzindo uma intrincada teia onde se cruzam histórias e figuras bastante díspares e onde não faltam, até, uns laivos de sobrenatural.
Como se toda esta confusão de acontecimentos e sentimentos não fosse suficiente para povoar um enredo, Pancol acrescenta-lhe um “serial killer” a fazer vítimas no bairro para onde a família se mudou, bem como um corpo policial bastante desconfiado e a deixar Jo à beira de um ataque de nervos… e com uma desoladora falta de inspiração para um novo romance.
Do primeiro para o segundo livro, a escritora conseguiu, sem dúvida, encontrar um rumo inesperado para as suas personagens e fugir completamente à previsibilidade. Resta saber como avançará em “Os Esquilos do Central Park Estão Tristes à Segunda-Feira” (ainda não editado em Portugal).
Katherine Pancol, recorde-se, nasceu em Casablanca, Marrocos, tendo mudado para França aos cinco anos. Estudou Literatura, deu aulas de Francês e Latim e dedicou-se ao jornalismo, profissão que muito contribuiu para lhe despertar a atenção e a capacidade de “captar” o mundo à sua volta.
Ex-jornalista de publicações como “Paris Match”, “Cosmopolitan” e “Elle” – para as quais entrevistou, entre outros, Reagan, Jospin, Chirac, Meryl Streep, Johnny, Vanessa Paradis, Martin Scorsese ou Johnny Depp –, Pancol afirmou em várias publicações sentir-se surpreendida com o êxito alcançado pelos seus livros desta trilogia, até porque não representaram a sua estreia na ficção. O primeiro romance, “Moi d’abord”, foi publicado em 1979.
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Katherine Pancol
A Valsa Lenta das Tartarugas
A Esfera dos Livros, 21€