Luís Almeida Martins: “O interesse dos portugueses pela sua História é um imperativo”


Uma história por dia, a História de Portugal todos os dias do ano. É a proposta do jornalista Luís Almeida Martins no seu novo livro, no qual narra episódios e dá a conhecer protagonistas do nosso longo percurso coletivo, desde o tempo das figuras de Foz Côa à queda da ponte de Entre-os-Rios. Sem esquecer o 25 de Abril. Uma forma divertida de conhecer ou relembrar o nosso passado comum pois, como afirma o autor, “viver, quer a nível coletivo quer individual, é comparar permanentemente o presente com o passado”.
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P – O que o levou a optar pela divulgação das histórias da História?
R – É fundamental as pessoas conhecerem o passado coletivo. Se o desconhecerem, não entendem o presente, que é necessariamente uma consequência de ações praticadas no passado. Mas um outro objetivo deste livro é também entreter e divertir os leitores. No que toca à capacidade de fascinar, na maior parte dos casos a realidade supera a ficção

P – Os portugueses precisam de histórias para se interessarem pela sua História?
R – A História é feita de histórias, ou seja, é indissociável delas. Se se pretender contar a História sem contar histórias, o resultado é uma coisa entediante...

P – Começa com as figuras de Foz Côa e termina na queda da ponte de Entre-os-Rios. Qual o critério temporal que estabeleceu?
R – Comecei por convidar os leitores a imaginarem o território português no tempo em que viveram os autores das gravuras do Côa, que são provavelmente a mais antiga referência histórica conhecida pela generalidade dos portugueses no que toca a esta região onde um dia nasceria um Estado com o nome e Portugal. A referência à queda da ponte de Entre-os-Rios deve-se à importância mediática do acontecimento, que está bem presente na nossa memória.

P – Na introdução critica o imediatismo dos tempos que vivemos. A opção por factos curiosos descritos em pequenos e incisivos textos não é também, de certa forma, a assunção da pressa e da falta de profundidade que marcam a contemporaneidade?
R – Claro, pois se os leitores e eu vivemos neste tempo... Falando a sério: textos longos e carregados de notas seriam bem mais difíceis de «digerir» pelos leitores apressados de hoje. Para ser franco, não seriam lidos. Ora, a principal preocupação de qualquer autor é ser lido. E esta fórmula parece estar a resultar em cheio, pois as pessoas, pelos ecos que me vão chegando, leem mesmo o livro...

P – Num tempo dominado pela Economia e Finanças há espaço para a História? Ou para a compreensão da sua importância numa reflexão sobre o presente e o perspetivar do futuro?
R – Um dos principais males do mundo atual é exatamente o estar a ser dominado pela Economia e as Finanças. Isto é tanto mais grave quanto a maioria dos economistas que conhecemos patenteiam uma enorme ignorância histórica e humanista em geral. Ora, as sociedades humanas não devem ser geridas como empresas concebidas para darem lucro: o objetivo inicial da política é governar para o bem comum, coisa que parece agora esquecida por quem não se preocupa com as desigualdades geradas e, pelo contrário, até as estimula na prática. Claro que há todo o espaço para a História, e é lamentável que não se recorra mais aos seus ensinamentos. Não consigo conceber que se olhe em redor e se ponha e disponha da vida das pessoas sem desenvolver o menor esforço humanista.

P – Estão criadas as condições para os portugueses se interessarem (reconciliarem?) pela sua História?
R – Essas condições nunca deixaram de estar criadas. Viver, quer a nível coletivo quer individual, é comparar permanentemente o presente com o passado. Por isso os mais velhos são mais sábios: a sua experiência pessoal permite-lhes comparar épocas e tirar ilações com a própria cabeça sem receio de incorrer nas ditaduras do «politicamente correto» e do ridículo, seja isso o que for. Em regra, os mais jovens limitam-se a reproduzir as ideias que ouvem, quer por falta de experiência de vida, quer pelo medo de não serem fashion... O interesse dos portugueses pela sua História é um imperativo.

P – As histórias estão divididas por sete temas principais: escolheu-os por lhe parecerem os mais interessantes para um público alargado ou por serem os da sua preferência?
R – A ideia foi diversificar as abordagens, permitindo aos leitores uma variedade de perspetivas.

P – Ao contrário de muitos dos compêndios escolares, não ignora o 25 de Abril e alguns dos seus personagens. Sentiu alguma dificuldade na abordagem, dada a proximidade de um jornalista da sua idade aos factos e pessoas?
R – Nenhuma. Aquela História foi a que eu vivi, aquela em que participei e a que conheço, portanto, de cor. Difícil é conseguir olhar para o presente imediato com olhos de enquadramento histórico, sem nos deixarmos influenciar pelo ruído à volta – em grande parte produzido pelos tais economistas e financeiros...

P – São 365 histórias, uma para cada dia do ano. “Sobraram-lhe” episódios bastantes, se quisesse avançar para um segundo volume?
R – Mais 365 histórias com real importância seria difícil reunir; mas, claro, há sempre outra formas de abordar estes assuntos. Segundo outros figurinos, digamos assim.

P – Em que pojeto está a trabalhar agora?
R – Ideias não faltam. A seu tempo se verá...

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Luís Almeida Martins
365 Dias com histórias da História de PortugalEsfera dos Livros, 24€

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