O repórter a ver reportagem

O que será a televisão do futuro, em Portugal, voltou à tona nas discussões. Não é questão técnica, não, é a pressão da economia e da política (e da ideologia, diga-se…) no terreno dos media. É uma nova visão do mundo da comunicação social que entra no jogo. A condenação do velho modelo das rádios e televisão públicas é hoje uma evidência e os procedimentos com vista à sua extinção, total ou parcial, estão nos noticiários.
O ponto de situação no que se refere a uma das expressões mais importantes do jornalismo televisivo, a reportagem, é pois uma urgência. Tanto mais que se trata de um dos recursos mais caros, num universo em que todos os custos são muito altos. A (grande) reportagem, televisiva ou outra, mobiliza meios humanos e técnicos, consome tempo e obriga a viagens, sempre de equipas mais ou menos amplas. Mesmo nos dias de hoje, em que os novos dispositivos tecnológicos simplificaram muitos dos procedimentos, o problema continua em cima da mesa.
Um dos motivos alegados para a mexida na televisão pública é precisamente o seu custo, ao cuidado do Estado, naturalmente, por ser um meio público. Levado a sério, dificilmente o saldo é positivo, no que se refere à informação, mesmo quando o titular é um operador privado, e se acautela. Mas, nestas circunstâncias, os custos elevados (da informação e de toda a máquina televisiva…) obrigam a uma racionalização dos meios nem sempre compatível com a resposta a situações que exigem reportagem.
Jacinto Godinho foi ao longo de muitos anos um dos expoentes da reportagem na RTP, premiado, mais tarde doutorado nesta área académica. Após uma primeira abordagem em livro sobre “As Origens da Reportagem – Imprensa”, publicou agora um volume circunscrito à problemática da televisão.
Saltou, assim, de «uma cultura funcionalmente ligada ao mundo dos jornais», para o «temporalmente curto mas interessante fenómeno da grande reportagem televisiva em Portugal». E a actividade andou pela mão da televisão pública, a RTP, até que o governo de Cavaco Silva abriu as portas aos operadores privados, nos anos 90 do século passado.
A problemática histórica, tecnológica e jornalística do género reportagem televisiva merece do autor longa reflexão, com recurso a fontes diversas justificadas pela necessidade de explicar a evolução, particularmente na sua relação com o telespectador, uma vez que o trabalho não se esgota na mera elaboração. É um processo comunicacional que se completa quando chega ao destinatário – e este o consagra como fonte de informação e conhecimento credível.
Mas esta obra não se limita às ambicionadas grandes reportagens, que fazem sonhar todos os profissionais. «A notícia passou a comandar os ritmos da pequena “reportagem” nos telejornais. A “reportagem curta” segue a notícia, ilustra-a, testemunha-a e é por esta justificada. Cada vez mais só a notícia justifica a reportagem e as reportagens vão, por isso, existindo apenas como satélites da notícia», explica.
Está dado o mote para a importância do género, pois a actualidade implica sempre uma escolha: o que cada meio de comunicação elege como tema, ou sacrifica ao silêncio, é sempre o resultado de diversos factores em jogo, do preço às disponibilidades, de equipas ou de dinheiro, podendo mesmo chegar-se à (in)conveniência de relevar um determinado acontecimento. E, aqui chegados, é a actualidade: desaparecida a RTP, ficam as operadoras privadas com o jogo, as opções e os lucros. O público, esse, vai sabendo pelos jornais e televisões do que decidiram em seu nome. É a reportagem que lhe respeita.
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Jacinto Godinho
As Origens da Reportagem – Televisão
Livros Horizonte, 16,27€

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