Saramago das primeiras colheitas

A edição póstuma de um romance de José Saramago vale, à partida, pela abordagem que permite à sua origem e ambições quando se lançou à escrita. Claraboia, que se segue a Terra do Pecado, tinha ficado esquecido nas gavetas de um editor que lhe recusou a publicação. Perdida a única cópia que guardara, viu mais tarde ser-lhe devolvido o original, mas recusou então a proposta oportunista de publicação – já ele tinha nome feito. Assim, deixou-o para publicação depois da morte, porque achou que já não correspondia ao seu estilo.
E não era o seu estilo, o que nos chegou, nem a sua temática. Esta é a forma de uma época, a abordagem própria do neorrealismo português para uma questão que, depois de tudo, remete muito escassamente para assuntos posteriores, as que se seguiram ao livro de lançamento como escritor nacional, Levantado do Chão. É um livro pelo menos realista, neorrealista, descrição de uma comunidade observada por essa claraboia que permite olhá-la e sobre ela discorrer.
“Vivemos entre os homens, ajudemos os homens”, diz o sapateiro do prédio que escora a história. “E que faz o senhor para isso?”, pergunta-lhe o hóspede, o amigo ali conhecido, que está de partida após uma mentira, “uma mentira que serve da capa a todas as vilanias”. “Conserto-lhes os sapatos, já que mais não posso fazer agora”, atalhou o sapateiro. E aqui, neste diálogo, está lá uma certa ironia amarga que repetiu no futuro.
De facto, o prédio «construído» por Saramago corresponde a um políptico em que move as peças: os vários apartamentos do cinzento salazarista, as pessoas cinzentas do salazarismo, mais a natureza do homem, ali, em família, na vizinhança, nas relações que do trabalho traz para casa – e nem sempre pode deixar lá fora.
Na verdade, é o bom povo português, uma síntese, que habita este prédio – uma espécie de «conta-me como foi» escrito na época dos acontecimentos. As suas contradições, dificuldades, uma luta de classes muito pouco emersa. Há o amante de uma das locatárias, o malandro que mantém por conta a trintona, e aproveita para tentar o mesmo com a vizinha de baixo, menina tenra. Depois há as diversas famílias, os seus desamores, desentendimentos, mas Saramago não arrisca muito mais na denúncia política daqueles anos do que a conversa do sapateiro com o seu hóspede.
No fundo, parece que o autor, como o sapateiro, tratou de arranjar os sapatos do próximo, como forma de ajudar. Mas quando a claraboia do 25 de Abril o permitiu, ele aí estava, e então radical, o director do “Diário de Notícias”. A buscar caminhos, que vão de Levantado do Chão a obras verdadeiramente essenciais, como o Ensaio sobre a Cegueira.
É uma grande surpresa? Não, Claraboia, um livro precursor da obra de Saramago havia de ser mais ou menos assim. Está suficientemente bem escrito? Absolutamente, mas ele ainda foi fazer mais oficina para se abalançar à corrida de fundo iniciada quando devia estar a caminho da reforma. E assim se acede agora a uma peça do xadrez que ajuda a explicar tudo. Se os dois primeiros livros de Saramago não correspondem ao que veio depois, ainda bem que ele os escreveu, entendendo que o fez como ensaio, experiência, tentativa de encontrar-se como escritor. Fez-se ao caminho, fazendo-o.
Já aqui mora a escrita clara, o balanço que lhe permitiu passar pela poesia, pela actividade editorial, pelos jornais. Já aqui está a consciência clara do mundo que persegue. Era tudo o que precisava, mesmo que o editor daquele tempo não apreciasse o seu trabalho. Ainda que os tempos da política tenham sido usados para o torpedear. Ele sobreviveu, contra o desejo dos que se opunham à sua visão do mundo.
(Recomendação: veja e atente o leitor na proposta de olhar do autor da capa, que abriu na capa uma claraboia para um bairro dos anos 50 portugueses. Depois é escolher a casa que corresponde ao mundo de Saramago.)
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José Saramago
Claraboia
Caminho, 18,50€

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(C) Vieira da Silva

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