A guerra e a paz podre

A caminho de quatro décadas sobre o êxodo dos portugueses de Angola (e de Moçambique, e de…) as feridas ainda sangram. As tentativas de fazê-las sarar têm sido muitas, do ódio eterno ao 25 de Abril ao conformismo, passando pelo aproveitamento puro e simples das novas condições criadas. Os “retornados”, como lhes chamaram, acabaram maioritariamente por integrar-se, muitos com marcas de sucesso e contributo para que Portugal mudasse. E mudou.
Criou-se entretanto uma espécie de mercado da saudade dos que tendo conhecido terras africanas (por lá se terem fixado, ou “apenas” por lá terem combatido) não perdem oportunidade de recordar – afinal recordar é viver, como se diz. E então no domínio dos livros não tem faltado quem se dedique a actividades tão diversas como a recolha documental (fotos não faltam…) à ficção mais actualizada, ao que se lê e ouve já com protagonistas de segunda e terceira geração.
Aqui chegamos à criação de um ambiente no quadro colonial, militares portugueses ao nível dos oficiais milicianos, colocados num quadro muito especial de Angola, como era Lubango (ex-Sá da Bandeira). Cidade já menos marcada pela africanidade pura e dura, lugar de fixação de uma população branca muito ligada à terra, a guerra colonial só lhe tocou mesmo na parte final, quando a estrutura cedeu, os movimentos de libertação chegaram abertamente ao terreno, e a guerra civil se instalou.
Muitos dos portugueses que ali se tinham fixado, famílias que sendo portuguesas de bilhete de identidade nunca tinham voltado (ou sequer vindo…) a Lisboa, partiram directamente para a Namíbia e África do Sul, onde se fixaram, e outros até mesmo daí zarparam para destinos alternativos.
Quando isso aconteceu, um drama violento, seja qual for o ângulo de abordagem, os protagonistas desta ficção evidentemente baseada em memórias pessoais viviam no terreno entre o sossego e a bondade dos dias de Lubango e o desterro dos milicianos (e tropas do quadro, claro…) em terras de Mavinga. Este é o centro da história vertente, mas aqueles eram terrenos que assustavam os mobilizados do “puto”, pela guerra dura, a distância, o isolamento durante meses seguidos. Terras do fim do mundo, como lhes chamavam.
Oportunidade, esta história de guerra colonial, para que o leitor aprecie pela escrita de um natural de Angola a miséria da situação à época: à espera do desterro de Mavinga (e outros…) conviviam em Lubango os militares, milicianos e não milicianos, convocavam fantasmas ou afastavam-nos, deliciavam-se com a paz da região e da cidade. Um miliciano não resistiu, ele que era pacifista e recebeu ordem de marcha para o terreno da violência – e suicidou-se. Outro recebe notícias de um amigo de escola, que recusou o embarque e deu o salto para Paris. Muitos namoriscam, comem, bebem, divertem-se. Um dos desterrados para Mavinga deixa em Sá da Bandeira um amor que julga inextinguível. Mas junto ao aquartelamento perdido no mato encontra uma professora que consigo comunga o olhar a vida – livros, entre o mais.
Há-de deixar esta namorada quando acaba a comissão, com promessas de reencontro, casamento, amor para a vida. No Lubango, a namoradinha já o tinha esquecido, a correspondência fora caindo até desaparecer. E o miliciano volta a Lisboa já nos tempos revolucionários, ele que sempre se manifestara contra a guerra, a favor uma mudança nos destinos do país. Embrenha-se no calor das políticas partidárias, esquece o amor do fim do mundo. Reencontra o amigo que tinha escolhido Paris para alternativa à guerra ignóbil. E envelhece, envelhecem ambos…
Um dia recebe uma mensagem electrónica. Um dos seus mais próximos do quartel em Mavinga vai estar em Lisboa e marca-lhe encontro num restaurante. É esse o cenário do balanço, em que a moral da história emerge e determina o sentido do livro. O amigo, filho de angolanos brancos da zona do Lubango (fixados ainda no século XIX!), foi apanhado pela voragem dos acontecimentos revolucionários, com a família, e não conseguem ou não querem usar a ponte aérea que poderia tê-los trazido a Lisboa. Partiram, como tantos outros, em caravana automóvel para sul, pela Namíbia. Alguns dos companheiros de fuga fixaram-se por aí, outros seguiram para a África do Sul. Foi o caso da família do protagonista, cujos pais aqui morreram, e essa morte é tema de recriminação para o “abandono” dos portugueses europeus que os levou a este desespero.
Traz agora, a Lisboa, que finalmente conhece já em idade de reforma, o dedo espetado para o antigo camarada de Mavinga – que se faz acompanhar pelo amigo de infância, o tal que se refugiara em Paris. Suscita-lhe o remorso pelo abandono a que votou a namorada, ela que sempre perguntara por ele, se informara sobre o seu destino, e forneceu o endereço electrónico que permitiu marcar o encontro. É numa mesa a três que o acerto de contas se processa – o visitante, embora com a mesma idade, apresenta-se pleno de vigor físico, veste todo o conforto da vida que a Austrália acabou por proporcionar-lhe. Acusa, em nome da namorada abandonada, um ex-camarada miliciano, alquebrado, gasto, vencido pela vida – que isto das revoluções…. E o trânsfuga de Paris come por tabela.
Dito isto, reconheça-se o mérito da história. O Portugal evocado, que alimentava a guerra em nome de um império a que já não chamavam assim – os tempos obrigavam a dobrar a língua –, era um país pobre, amarfanhado, com uma população que não vislumbrava saída para a pobreza e a opressão. Está ali sintetizada a história desse Portugal, nas linhas que definem cada uma das personagens. Terá algumas imperfeições na tentativa de descrever o cenário daqueles tempos, mas a distância faz coisas dessas.
(Saliente-se, nem tanto pelo caso deste livro, que o fugitivo de Paris foi aqui posto a escrever ao amigo desterrado em Mavinga uma carta, supostamente em 1972, em que lhe traça um circuito pela “cidade luz”, incluindo entre outros pontos artísticos uma visita ao Museu de Orsay. Acontece que só muitos anos mais tarde a antiga estação ferroviária acolheu a excelente e imperdível colecção de arte que hoje alberga.)
Em suma: esqueçamos o objectivo do livro, se o houve. Até pode acontecer que o autor tenha sido levado pela imposição do miliciano do Lubango – porque agora está na moda serem as personagens a dizer aos autores o que hão-de fazer delas, qual o curso das histórias. O que importa é o agrado pela recuperação de uma época nem sempre conhecida, ou já meio esquecida da História de Portugal. Há por aí muitos defensores da ideia de que dantes é que era bom, de que “isto nunca foi tão mau”. No fim do livro, perceberão que não foi bem assim. Nem nada que se pareça.
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António Mateus
Lubango, Paris, Mavinga
Guerra & Paz, 17,95€

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(C) Vieira da Silva

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