Isabel Machado: “Isabel I exerceu o poder de uma forma muito feminina”


Isabel I era emotiva, intuitiva, imprevisível, vaidosa, carente e ciumenta, mas também brilhante, culta, manipuladora, exímia negociadora. O seu reinado transformou Inglaterra, ao conseguir paz e prosperidade económica e abrindo o país ao mundo. A sua vida vai cruzar-se com a de Rodrigo Lopes, um médico judeu português que cedo assume um papel de relevo na complexa teia diplomática internacional. A intriga palaciana ditará o seu fim, e nem a cumplicidade com a soberana o salva. É neste intenso e interessante cenário que a jornalista Isabel Machado faz a sua estreia literária.
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P – O que a levou a escolher, para primeiro romance, a história de uma rainha inglesa? Tinha um interesse especial pela soberana ou foi o período histórico que ditou a opção?
R – Tinha, efectivamente, um interesse especial por Isabel I há muitos anos. Na faculdade fiz um trabalho de fundo sobre ela que, infelizmente, perdi também há muitos anos, pelo que tive de começar a pesquisa do zero... Quando se colocou a possibilidade de escrever um romance histórico, Isabel I foi um dos primeiros nomes falados e, em menos de 24 horas, tinha tomado a decisão, quis trazer esta mulher tão controversa e fora do comum para a literatura portuguesa. O facto de ter vivido naquele período histórico, tão recheado de acontecimentos e personagens fascinantes, não pode ser dissociado da sua vida como mulher e monarca. As circunstâncias históricas moldaram-lhe o carácter e acabaram por influenciar, de forma marcante, a forma como viria a reinar.

P – No seu livro há a preocupação de dar a conhecer Isabel I não só como rainha mas também como mulher. Considera a sua história pessoal tão fascinante como o seu papel estratégico na política mundial da época?
R – Sim, existe essa preocupação desde início. E, mais uma vez, não podem ser separados, como penso que nunca podem. É curioso porque hoje fala-se muito de como é exercer o poder no feminino, se existe uma forma feminina de fazer política. Quando a resposta é afirmativa, é comum dizer-se que as mulheres trazem mais sensibilidade para a política. Outros dizem que não há diferença nenhuma. Eu acho que as mulheres têm quase sempre de provar mais do que os homens para chegar ao topo e, frequentemente, subjugam-se a formas ancestrais de exercer o poder – por exemplo, ao nível dos horários que, muitas vezes, incompatibilizam o acompanhamento da família e dos filhos, em particular. Este é um dos grandes motivos, a meu ver, que afasta muitas mulheres de cargos de chefia/poder e é uma pena. Toda a sociedade teria a ganhar se o tempo dedicado à família fosse considerado prioritário, ao mesmo nível do tempo passado fora de casa. Temos muito de caminhar, acredito que as sociedades futuras vão cada vez mais equilibrar os dois mundos e aproximar os papéis de homem e mulher, levando-os a uma verdadeira partilha.
Agora, de uma coisa estou certa: Isabel I exerceu o poder de uma forma muito feminina, essa é uma das suas características mais interessantes. Emotiva, intuitiva, imprevisível, absurdamente vaidosa, carente, ciumenta da atenção dos outros, namoradeira mas também brilhante, culta, manipuladora, exímia negociadora. Tive um cuidado especial em vincar a coexistência destas características, até pelo absurdo das situações, por exemplo pondo a rainha a inspeccionar a peruca ou a pele das mãos enquanto discute uma acção militar em pleno conselho privado...Baralhou todos, desafiou e reformulou as regras vigentes, levando o reino a um período áureo como nunca antes.

P – Embora advirta que alguns dados e datas foram adaptados por conveniência narrativa, verifica-se um enorme cuidado em manter o rigor histórico. A escrita do livro exigiu-lhe um grande trabalho de investigação?
R – Exigiu um imenso trabalho de investigação, colossal. Desde logo ao nível político e religioso, a questão religiosa é central no romance, com a presença marcada das igrejas católica e anglicana, esta em duas versões, uma mais radical e outra mais moderada, e do judaísmo, através de Rodrigo Lopes.
Depois, estudei também com bastante minúcia a medicina praticada na época, a espionagem, a arte, a prática desportiva, a culinária, o vestuário, os usos e costumes, entre muitas outras coisas. Mostrar como vivia o povo era também para mim muito importante, fiz questão de sair dos palácios reais e entrar pela Londres do século XVI, para o que utilizei a personagem do Rodrigo Lopes.
Outra dificuldade acrescida da investigação prendeu-se com o facto de eu cruzar a história de vários países, sobretudo de Inglaterra e de Portugal, mas também de Espanha, França, Países Baixos e Escócia.

P – Como “descobriu” o médico português, Rodrigo Lopes, sendo uma figura quase desconhecida, mesmo entre historiadores?
R – Descobri o Rodrigo Lopes em documentos ingleses sobre a época do ataque da Invencível Armada a Inglaterra. Soube primeiro da existência de uma comunidade de cristãos-novos portugueses que informava a corte de Londres sobre as movimentações dos espanhóis, que na altura, recorde-se, ocupavam o trono de Lisboa. Fiquei encantada e entrei por aí. Não demorou muito até descobrir o nome deste médico, que me fascinou. O facto de ele ser desconhecido em Portugal foi, precisamente, um dos motivos do meu interesse. Quis reabilitá-lo – foi muito mal tratado pela história – e trazê-lo de volta à sua terra, ao seu país. Como uma homenagem póstuma, que lhe era devida há muitos séculos.

P – Tinha já um interesse especial pela sua perseguição aos judeus e pelo papel dos judeus portugueses no mundo?
R – Sim, sempre me interessei pelo tema da perseguição aos judeus, embora não fosse, de modo algum, uma estudiosa do tema. Apesar de não ter ascendência judaica – que eu saiba, pelo menos –, cresci a ouvir falar no erro da expulsão dos judeus de Portugal e também no holocausto. O meu pai era um apaixonado por História, aliás, dedico-lhe o livro.

P – O que a levou a centrar o seu romance na relação entre a soberana de Inglaterra e o médico português? Interesse narrativo ou vontade de dá-lo a conhecer à generalidade dos portugueses?
R – Ambas as coisas. Já referi que queria muito dar a conhecer aos portugueses este seu compatriota que teve de fugir e acabou por alcançar grande sucesso numa das cortes mais vibrantes de sempre e, no final, conhece um destino trágico. Conforme muito bem referiu, nem a grande maioria dos historiadores o conhecia. Por outro lado, em termos narrativos, era irresistível introduzir um português no quotidiano de uma das mulheres mais mitificadas de sempre. Nós, portugueses, gostamos muito de ver um dos nossos a impor-se no estrangeiro, sobretudo em países dominantes, poderosos, é muito curioso, sentimos um orgulho imenso no sucesso de um português “lá fora”, ainda hoje é assim. Adorei idealizar os diálogos e os encontros entre Isabel I e Rodrigo Lopes!

P – A intriga palaciana, que acaba por ditar o destino do médico português, é um dos pontos fortes do romance. Esse foco teve como objetivo manter o interesse dos leitores na narrativa?
R – A intriga palaciana em qualquer corte é um tema incontornável e, sobretudo, num tempo tão cheio de conspirações e traições, em que um passo errado podia levar ao cadafalso. A injustiça sempre me revoltou, os processos manipulados são um dos maiores horrores das ditaduras, de qualquer regime não democrático. A impotência dos que são injustamente acusados é uma vergonha para a humanidade. A história está cheia de casos destes, ainda hoje, é das situações que mais me aflige. As pessoas não dão o devido valor à democracia, nunca podemos esquecer os excessos para que nunca voltem. Temos uma justiça com muitas imperfeições, é certo, mas temos um privilégio extraordinário que é viver num Estado de Direito. Eu adoro história e acredito que conhecer o passado é fundamental para compreender o ser humano em toda a sua complexidade. Rodrigo Lopes representa todas as vítimas de discriminação, de violência, de intolerância. Era fundamental para mim retratar o seu desespero.

P – O que mais a seduziu no contexto histórico em que desenvolve o seu livro, e que abarca um período tão sensível da história dos dois países: a morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir e a ocupação espanhola, no caso português; e as mudanças em Inglaterra durante o reinado de Isabel I, nomeadamente em termos religiosos?
R – Tudo me seduziu, esse foi um dos problemas! Desde logo, a História de Inglaterra, naquele momento de viragem, em que tudo podia acontecer. Isabel I herda um reino empobrecido, profundamente dividido pelos ódios religiosos, sem alianças no exterior, isolado, depois de reinados violentos, quer católicos quer protestantes. Ela vai concretizar o seu grande sonho de pacificar o reino, criar uma igreja moderada e abrir Inglaterra ao mundo. Depois, a história de Portugal tem, nesta época, um dos períodos mais difíceis, com a perda de independência que vai ter consequências catastróficas, nunca mais recuperámos a hegemonia nos mares, no comércio. Apesar da forte concorrência, D. Sebastião consegue ser o pior rei da História de Portugal! Também me atraiu o facto de sabermos pouco sobre este período, quer imediatamente antes da perda da independência, quer aquando da invasão de 1589, que Isabel I ordena, para tirar de cá Filipe II e colocar no trono António, prior do Crato. Acho que muito poucos portugueses sabem deste episódio, conhecido praticamente só em Peniche. Aliás, o prior do Crato é outra personagem que eu desenvolvo e que me parece fascinante, representa um certo tipo de português, o aventureiro, determinado, corajoso, pouco sensato também...é outra das figuras que me apaixonou. E depois houve tantas outras: Filipe II, Maria Tudor, Maria Stuart, Henrique VIII e Ana Bolena, os pais de Isabel... Enfim, a dificuldade foi controlar o número de páginas!

P – Já está a escrever um novo romance? Em caso afirmativo, de que se trata? É novamente um romance histórico?
R – Estou em fase de decisão. Sim, penso continuar, para já, no romance histórico. Mas ainda não tenho definida a figura sobre quem vou escrever.
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Isabel Machado
Isabel I de Inglaterra e o seu médico Português
A Esfera dos Livros, 23 €

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(C) Vieira da Silva

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