Os jornalistas foram à escola

O campo do ensino e também o do trabalho mudaram radicalmente nas últimas décadas. As profissões de elevada especialização, normalmente sujeitas a habilitação superior, expandiram-se para novas áreas, em todos os ramos do saber… O conhecimento tornou-se o alvo de muitos jovens, mas também de mais velhos. O exercício profissional e o rendimento correspondente deixou de ser condição e objectivo únicos para a frequência de cursos, especializações, estudos adicionais. Bolonha, com os seus problemas, abriu alguns novos horizontes, esbateu fronteiras, diluiu limites.
O jornalismo foi até quase ao fim do século passado uma dessas actividades em que a habilitação específica chegou tarde, com os estudos marcados por uma elevada abstracção e distanciamento da labuta dos jornais. As ciências de comunicação forneciam aos seus licenciados novos instrumentos para abordagem das teorias comunicacionais, mas daí à habilitação profissional manteve-se um hiato. Nada que o dia-a-dia da profissão não resolva. Novos problemas surgiram, é verdade, mas nem tanto devido à maior habilitação dos profissionais – as dificuldades, de outra natureza, não se colocam aqui.
As novas exigências do jornalismo, face à evolução do produto final e dos públicos, mas também mercê das tecnologias da informação, entre o mais, arvoraram-se em desafio para uma parte do universo de jornalistas que durante décadas tinham labutado nas redacções. Na verdade, já nos anos 70 do século passado, e mesmo na década de 60, os novos jornalistas apresentavam-se habilitados com formação universitária ou pelo menos frequência das escolas superiores, em diversas áreas do conhecimento. Tinham interrompido os seus cursos por paixão pela profissão, por necessidades económicas, por interesse político…
O regresso desses jornalistas à universidade, particularmente na área a que se tinham dedicado profissionalmente, revelou-se complicado. «Independentemente das áreas científicas, das disciplinas frequentadas com sucesso, dos curricula profissionais – na maior parte dos casos, brilhantes – a solução administrativa era invariável: começar tudo do princípio, exactamente nas mesmas condições dos jovens que concluíam o ensino secundário», lembra José Rebelo, coordenador desta obra, professor do ISCTE e grande dinamizador do ensino na área da comunicação.
Foi o ISCTE o espaço de uma reviravolta na vida universitária desses profissionais que queriam voltar ao estudo e à investigação, na área das ciências da comunicação. Como explica José Rebelo na apresentação da obra, em 1997 a direcção do Sindicato dos Jornalistas resolveu encarar o problema e a sua presidente de então levou a questão ao ministro da Educação, Marçal Grilo. Desencadeado o processo burocrático com uma proposta formal, o processo esbarrou nos conselhos de reitores e coordenadores dos institutos politécnicos, «fechados que se mantiveram numa redoma de tradição e de corporativismo».
O ISCTE e os institutos politécnicos voltaram a manifestar abertura: em 1999, foi criada uma pós-graduação em jornalismo, ainda com exigência de uma licenciatura para a sua frequência, mas aberta a «candidaturas de jornalistas portadores de carteira profissional há pelo menos cinco anos e que não disponham de grau académico».
José Rebelo conta que durante quatro anos se repetiu a experiência de frequência destas pós-graduações por jornalistas, a par de jovens licenciados. A promessa governamental de equiparação da pós-graduação a licenciatura para efeitos de prosseguimento de estudos, sempre adiada, acabou por ser ultrapassada com a aplicação do Regulamento Geral do Grau de Doutor, a conferir pelo ISCTE, que abria horizontes a «detentores de um curriculum científico, académico e profissional, revelador da capacidade exigida para habilitação ao doutoramento».
A partir de então, alguns, poucos, jornalistas de profissão acederam sucessivamente ao mestrado (vários o concluíram) e ao doutoramento, e neste último grau cinco chegaram (ou estão em vias de chegar) ao fim.
O percurso permitiria abrir novos caminhos, também na área da investigação, no caso com vista à elaboração das teses de doutoramento. Tal levou à «adopção de um projecto de investigação que a todos mobilizasse», ou seja, a uma reflexão colectiva paralela do investimento pessoal de cada um. «Para tema de investigação, escolheu-se a “Análise sociológica do Jornalista Português», conta José Rebelo.
E a obra está aí. Foram recolhidos depoimentos de uma amostra de profissionais representativos do jornalismo português, a equipa trabalhou os dados disponíveis na Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas e no Sindicato dos Jornalistas. Doze investigadores entrevistaram 47 jornalistas, de veteranos (alguns já falecidos…) conhecidos, aos jovens que lograram a entrada nas redacções, é um acervo de experiências, as mais diversas. O conjunto dos depoimentos, para lá do ponto das carreiras individuais, permitem uma abordagem a diversas fases da imprensa portuguesa, incluindo uma boa parte no século XX.
As relações dos jornalistas com o poder político, os patronatos das diversas épocas, a censura (as censuras…), as novas formas de condicionar a informação e o exercício das liberdades constitucionais, é um pouco da aprendizagem aqui proporcionada. O desespero, claro, das mais recentes gerações, que acederam aos cursos e ao conhecimento na área da comunicação… mas enfrentam o desemprego crónico – muitos já de costas voltadas para o sonho.
O estudo sociográfico faz a súmula de tudo isto – os números encarregam-se de expor a evolução recente do mundo dos jornalistas profissionais portugueses, «um período extremamente rico em mutações tecnológicas, empresariais e culturais, no qual se sucedem fases de crescimento económico e de expansão do sector da comunicação social, seguidas de momentos de crise».
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José Rebelo (coord.)
Ser jornalista em Portugal – perfis sociológicos
Gradiva, 25€

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