Do amor e da guerra

Muitos livros foram já escritos sobre o efeito devastador da guerra e o surpreendente poder do amor que resiste entre destroços – de vidas, de sentimentos, de valores.
É impossível esquecer obras sobre a guerra e a condição humana como os excelentes “Por quem os sinos dobram” ou “Adeus às armas” de Ernest Hemingway, ou “O silêncio do mar”, o poderoso pequeno livro em que Vercors (pseudónimo do escritor francês Jean Bruller) narra a individualidade do ser humano em confronto com o absurdo da guerra, a resistência passiva que se transforma em relação silenciosa que nasce entre um oficial alemão e um francês e a sua jovem neta, em cuja casa ocupada se instala. E estes são, apenas, alguns exemplos, muitos outros poderiam ser citados.
Vem isto a propósito de um livro recentemente publicado que traz novamente ao contacto do leitor a reflexão sobre o poder de destruição (física e moral) do homem sobre o seu semelhante quando circunstâncias que não domina nem compreende se sobrepõem à sua vontade e desejo. Trata-se “Minha querida, queria dizer-te”, da inglesa Louisa Young.
Pelas suas quase quatro centenas de páginas perpassam a guerra, o amor, a condição de classe. O destino de dois jovens casais muito diferentes, que previsivelmente nunca se cruzaria, acaba por entrelaçar-se devido à guerra.
Riley Purefoy, filho de operários, cresce dividido entre duas classes sociais: a dos pais e a do mestre que o acolhe e lhe revela um mundo diferente, onde a pintura e a música são elementos fundamentais. Nesse mundo que não é o seu conhece a jovem Nadine, a paixão que o ajudará a suportar o absurdo da existência humana a partir do momento em que se oferece como voluntário durante a I Guerra Mundial.
Do lado oposto da escala social está Peter Locke, proprietário rural que por dever patriótico se alista no exército, deixando à sua espera a jovem e fútil mulher.
Nas trincheiras da Flandres, devastados pela morte e destruição que os rodeia, o comandante Locke e o soldado Riley desenvolvem uma forte cumplicidade só possível no pesadelo de transformações que o mundo (e os seus mundos) sofre.
Enquanto os homens combatem, em “casa” as mulheres não passam imunes à devastação da guerra. Além da separação e morte de familiares, amigos e vizinhos e da escassez de bens, algumas, como Nadine e Rose, prima de Locke, experienciam as consequências das batalhas enquanto voluntárias nos hospitais, onde diariamente chegam tantos jovens estropiados ou moribundos.
E quando a guerra termina e os casais se reencontram, elas percebem bem que os homens que voltaram já não são os que partiram.
“Minha querida, queria dizer-te” lê-se num fôlego e permanece no espírito do leitor por muito tempo.
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Louisa Young
Minha querida, queria dizer-te
Civilização Editora, 17,90€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.