Rui Rocha | A Oriente do Silêncio


1- O que representa, no contexto da sua obra o livro "A Oriente do Silêncio"?
R- O livro “A Oriente do Silêncio” é o meu primeiro livro de poesia e a sua publicação surge por um acaso de vontades de pessoas amigas que entenderam que o livro mereceria ser publicado. Este livro será, porventura, a convergência de duas circunstâncias: uma, a minha proximidade e convivência,  desde muito cedo,  com a cultura e a poesia chinesa e japonesa e com a tradição poética do Chan (Zen), uma vez que descendo de uma família luso-chinesa do ramo materno e aí foram proporcionadas as condições para esse conhecimento; a outra, o ter tido a possibilidade de estender a minha vida profissional a Macau, onde vivo há 28 anos,  relançando-me, “por proximidade e entre vários orientes, ao oriente da China de Wang Wei e ao do Japão de Bashō”.
Em Macau, reli muito do que existe da poesia da dinastia Tang, na China (618-907), e dos grandes poetas como Wang Wei, Li Bai, Du Fu, Bai Juyi, Liu Yuxi e outros, e voltei à poesia japonesa haiku  do séc. XVII e seguintes, de Bashō, Buson, Issa, Shiki e outros, que são belos registos do instante, totalizante, intuitivo e, por isso mesmo, simples e conciso.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A ideia deste livro foi a de escrever poesia com um olhar e um sentido do lugar, a partir das tradições poéticas que me sensibilizam e me estão poeticamente mais próximas.  A proximidade é o próprio acto da escrita, a economia das palavras em relação ao sentido.  A natureza e os temas como a lua, os tempos de vida, os dias e as noites, o mar, o amor obviamente,  são a intermediação poética.  A poesia oriental  é, grande parte dela, uma poesia na natureza. Os pequenos instantes da natureza são vividos pelos poetas orientais com um sentimento reverencial e uma admiração sincera, contemplando-a na sua humildade, na sua beleza sem ostentação, no seu despojamento, na sua efemeridade até.
Diria que não é uma tradição poética exclusiva do Oriente mas predominante do Oriente. Num artigo sobre o Chan (Zen), a clara virtude do budismo chinês, que foi ou irá ser publicado na revista Letras com Vida do CLEPUL,  referia precisamente a existência de um chan poético universal em muitos poetas ocidentais como Wordsworth, Thomas Hardy, William Blake, Frost, Ezra Pound, Alberto Caeiro e tantos outros. Um sentimento que tem, de algum modo, um leve paralelo com a visão contemplativa cristã designada, o  acaso amor divino, em Mestre Eckhart, São João da Cruz e outros místicos da Igreja.
E nesta admiração/contemplação emerge um discurso do silêncio, uma eloquência do silêncio, ou se quisermos silenciosa eloquência, um mistério da enunciação que contrasta genericamente com a tradição poética ocidental que é fortemente discursiva que contém subjacente uma doutrina do logos, indutiva, conceptual, argumentativa, analítica. Se  tivesse de caracterizar estes dois diferentes mundos poéticos, em termos muitos gerais, diria que um é de uma estética da eloquência (o ocidental); o outro, de  uma estética do silêncio (o oriental).
Daisetsu Teitaro Suzuki, um conhecido professor japonês de filosofia e divulgador do pensamento Zen dos anos 60, no seu texto integrado no livro Zen e Psicanálise reporta estas duas diferenças culturais confrontando as duas tradições poéticas, ao apresentar dois poemas e duas atitudes poéticas contrastantes perante a observação de uma flor:

Quando olho atentamente
Vejo a flor da nazuna
Ao pé da sebe
Basho (1644-99)

Flor no muro fendilhado/ eu te arranco das fendas/seguro-te aqui, com raiz e tudo na minha mão/florzinha – mas se pudesse compreender/ o que és, com raiz e tudo e tudo em tudo/ conheceria o que são deus e o homem
Tennyson (1806-92)

Sinto um enorme prazer em ler Herberto Helder e Nuno Júdice, porventura  dois dos  maiores poetas contemporâneos portugueses mas depois... a nota, o relato sensível do aqui e agora do lugar, a apreensão do estar que, tal como se diz na apresentação do livro, transcende a dimensão do texto, reservando um espaço para o silêncio entre as palavras, está “filogeneticamente” mais próximo do que gosto de escrever.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Continuo a escrever poesia, independentemente de poder vir ou não a publicá-la. Mas a minha escrita reparte-se também por temáticas bem diversas: uma, clara e recorrentemente burocrática (planos de actividades e orçamentos); outras, sobre sociolinguística, teoria da escrita, tópicos da cultura chinesa (a simbologia dos signos chineses, por exemplo), alguns segmentos da historiografia dos portugueses na Ásia, e outros.
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Rui Rocha
A Oriente do Silêncio
Esfera do Caos

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