Vasco Rosa sobre Raul Brandão


O lançamento de um novo livro de Raul Brandão é um acontecimento. 
Pela qualidade da escrita, pela actualidade das ideias, pela cuidada edição.
Vasco Rosa (organizador da obra) fala-nos de Raul Brandão e da importância destes textos escritos para jornais e revistas. 
São textos inéditos em livro que a Quetzal agora nos revela.
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1-O que podemos encontrar neste livro de Raul Brandão, que organizou?
R-"A Pedra ainda Espera Dar Flor. Dispersos (1891-1930)" reúne, como o subtítulo indica, textos que Raul Brandão escreveu ao longo de quatro décadas para jornais e revistas e que nunca haviam sido publicados, por exemplo como complemento da reedição das suas obras, embora se soubesse, desde a sua biografia por Guilheme de Castilho (1978), que ele andara muito nas redacções dos jornais do Chiado, como também percebe quem leu as suas famosas Memórias. O que aqui encontramos (quase duzentos textos) é, portanto, tudo ou quase tudo o que ele publicou na imprensa e depois não incorporou nos romances, nos contos, enfim nos livros que publicou. São quase quinhentas páginas, o que significa que a actividade dele como jornalista (até repórter) foi enorme, e muito variada, até geograficamente. Mas é mais do que isso. Este livro permite provar que temas sociais, como os homens do mar, lhe mereceram atenção muito antes de "Os Pescadores", e que dedicou a temas artísticos, como o Teatro (em cuja renovação esteve tão empenhado), uma atenção crítica maior do que se pensava. Por exemplo, num comentário à vinda a Portugal do grande actor italiano intérprete de Shakespeare, Giovanni Emanuel, ficamos a saber que Raul Brandão conhecia bem, não apenas as peças do inglês, como tinha uma noção da diferença de valor entre os seus grandes intérpretes. Luiz Francisco Rebello, que preparou e comentou uma edição do teatro brandoniano, não conheceu este artigo, que certamente o teria surpreendido bastante. Há também muitas páginas sobre figuras da época: descobri outros textos dele sobre Camilo Castelo Branco, uma crítica ao "Só" de António Nobre, até mesmo sobre Rafael Bordallo Pinheiro.

Perto de 1900, Brandão fez crítica de livros de forma regular e consistente, que ajuda a entender o que significava para ele a escrita literária. Isso nunca tinha sido evidenciado. Reuni, por exemplo, uma série de artigos sobre os chamados Poetas Novos, uma geração à qual esteve muito ligado, em especial quando ainda vivia no Porto. Ficamos também a saber que se interessava por literatura brasileira, por Euclides da Cunha, e outros… E há pequenas narrativas, pinceladas sobre o Marão, sobre o rio Douro, sobre a Serra de Sintra, que mostram todo o seu talento literário. Juntei, de resto, num capítulo essas páginas que ele escreveu para o "Guia de Portugal" de Raul Proença, obra muito importante na época.
Mesmo a escrita para crianças, que aparecia quase como um divertimento literário envolvendo a sua esposa nos derradeiros anos de vida, surge já em 1903, num belíssimo texto sobre a vida na beira-mar.

2-Qual a importância e a actualidade destes Dispersos de Raul Brandão?
R-É sempre muito arriscado ou pretensioso arriscar um vaticínio desse tipo; tudo dependerá do que os leitores, ao longo dos tempos, forem encontrando nos livros que lêem. Um livro tido como fantástico num certo momento (pense em "O Que Diz Molero" de Dinis Machado, que foi tão marcante, ou em A Causa das Coisas de Miguel Esteves Cardoso) pode ser olimpicamente ignorado duas ou três décadas depois, para voltar a fascinar pessoas, uns anos adiante…

Formalmente, os dispersos dum escritor são sempre importantes, pelo menos para se fixar aquilo a que genericamente se chama a sua biografia literária. Nesse sentido, estes Dispersos são valiosos, porque põem a descoberto toda a variedade de jornais e revistas em todo o país aos quais Raul Brandão ofereceu ou cedeu a sua colaboração. Através desta pesquisa ficou a saber-se, por exemplo, que que muitos anos depois de ter publicado um certo relato sobre pescadores numa revista de grande circulação, deu-o a publicar a um pequeno jornal local noutro extremo do país. Muito pouco disso era conhecido. Significa também que o escritor «redescobriu» os seus textos antigos e os relançou.

Morto em 1930, desde então ninguém empreendeu esta tarefa antes de mim. E no entanto, todos estes textos se encaixam, com a precisão de um puzzle, na obra já impressa de Raul Brandão. E como ela está a ser editada de novo, na Relógio d'Água, com cinco novos volumes previstos para 2013-14, estes Dispersos finalmente reunidos lançam sobre aqueles livros uma outra luz, e vice-versa também…
Quanto à actualidade, esse aqui e agora que a pergunta supõe, direi que a actualidade é dupla: os temas universais da condição humana (o tal que faço eu aqui?) continuam a interpelar cada um de nós a cada dia que passa; e a preocupação brandoniana com os desvalidos e o elogio dos homens livres, santos e poetas-sonhadores, presente em muitos destes textos (por exemplo numa série de reportagens que intitulei de «Lisboa, cidade negra» ou noutros textos, no capítulo «A voz do homem»), está na ordem do dia, pelas piores e pelas melhores razões. A renovação do Teatro, por exemplo, aproximando-o o mais possível da vida das pessoas, que foi uma das suas batalhas, como é vincado nalguns textos agora publicados, também nos surpreende a cada esquina. Que Manoel de Oliveira tenha filmado "O Gebo e a Sombra", que é uma síntese das preocupações e das perplexidades brandonianas, demonstra bem a actualidade dos seus temas. E os temas de Raul Brandão eram recorrentes, como, aliás, as suas personagens. Depois, penso que ele acreditava que a humanidade haveria de melhorar, que a dor petrificada haveria de dar flor, como explicitou na frase que chamei a título do livro. Essa esperança também é actual, não acha?

3-Sabemos que está a trabalhar a obra de Raul Brandão, incluindo textos inéditos. Poderemos ter, no futuro, surpresas e novas obras para ler?
R-Os livros que Raul Brandão deixou prontos para saírem após a sua morte foram publicados por sua esposa, Maria Angelina: "O Pobre de Pedir" e "Memórias III". Túlio Ramires Ferro transcreveu nos anos 1960 e publicou mais tarde uns apontamentos sobre o meio e o mundo do operariado, que estavam ainda muito longe de serem obra formada, embora já anunciada como "Os Operários", mas qualquer pessoa sensata sabe que aquilo são apenas rascunhos e notas, não são uma obra lapidada.

Podemos, devemos supor que apareçam textos manuscritos, pequenas coisas na posse de um ou outro coleccionador ou no espólio de um ou outro escritor (ainda há dias descobri um…), até mesmo em alguma página de jornal, porque é incrível o que os jornais ocultam e revelam alternadamente. Mas tudo o mais é muito improvável. Podem aparecer, embora fosse mais do que um milagre, umas peças teatrais que chegaram a ser representadas no D. Maria II, em Lisboa, e estão dadas como perdidas, mas nada mais, digo eu.

O que vale a pena pensar — e estou a trabalhar nesse sentido — é em reunir o que contemporâneos de Raul Brandão escreveram sobre ele, e as páginas que mais tarde outros escritores escreveram sobre ele. Porque Raul Brandão, por ser inclassificável, manteve um carisma que interessou a gente muito diferente entre si. Tudo isso é muito importante e está por concretizar. É bem o que eu gostaria de fazer a seguir. O que também valeria a pena promover é uma exposição dos seus quadros (e um catálogo-álbum a cores). Mário Cesariny conseguiu expor alguns na Biblioteca Nacional, por ocasião de uma exposição comemorativa, nos anos 1980, mas depois dele ninguém mais se interessasse verdadeiramente por essa faceta de Raul Brandão, por mais que ele fosse tido como pintor de caneta e escritor de pincel, ora expressionista ora impressionista. É pena, porque isso já foi feito, até várias vezes e bem, para Teixeira de Pascoaes, que pintava e desenha igualmente. O que podemos contar é que, com o relançamento da "Obra Completa" e com o aparecimento destes Dispersos, a literatura de Raul Brandão será lida e relida, comentada e reavaliada, o que também está a acontecer no Brasil, onde uma nova geração de estudiosos se interessa muito vivamente pela sua obra. Podemos não ter mais livros, mas teremos mais e mais variadas leituras da sua obra, o que é óptimo, porque Raul Brandão é muito impactante.
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Raul Brandão
A Pedra ainda Espera Dar Flor. Dispersos (1891-1930)
Quetzal

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(C) Vieira da Silva

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