O Tejo como ele flui


Tomar um tema como um rio, uma cidade, uma serra, e a partir dele contar o que lhe vai na alma – as gentes, o tempo, a geografia – é questão maior. Implica investigação, mil cuidados. O Tejo, que é sempre superior ao rio da nossa aldeia, é assunto especial, vindo de Espanha e do fundo da História, com foz junto a Lisboa e as paisagens que o tempo lhe impôs.
Luís Ribeiro tem percurso de escrita feito no jornalismo. Agora, dedicou-se a contar Histórias do Tejo, um rio que, como titula a introdução da obra, é “mil quilómetros de histórias”. Uma distância da Serra de Albarracín ao Tejo, através de montes e vales ibéricos, com saudação a dez milhões de pessoas ao longo das margens, pontes romanas e modernas, áreas protegidas, paisagens tantas.
O autor alerta para o papel histórico crucial do rio em episódios da História de Lisboa, de Portugal e da Espanha. De trágicos naufrágios a batalhas épicas, tragédias e comemorações, há de tudo um pouco. Logo o grande estuário frente a Lisboa, que tão prometedor se revelava na protecção das embarcações que aqui aportavam. Os campos fecundos, em toda a volta, a maternidade piscícola das suas águas, a centralidade que se foi revelando na relação com o território que daria Portugal, são razões, entre outras, para a importância do Tejo. Lisboa é fruto desse namoro.
O autor vai então registando factos, lendas – como a de Palmeirim de Inglaterra e a sua relação com Almourol, atendendo ao conhecimento escrito e falado sobre os amores e desamores do cavaleiro. Também batalhas, como as fundadoras para romper o cerco montado a Lisboa, em 1384, pelos castelhanos; ou a formação da Armada Invencível, que no estuário se aparelhou para o desaire frente à frota inglesa.
Depois o Tejo na sua dimensão mais quotidiana. O rio era o sumidouro das “lamas” fedorentas de uma cidade a braços com uma profunda e maléfica falta de higiene. As margens como espaço para uma indústria de construção naval – de grande qualidade –, decisiva nos desígnios descobridores de muitas décadas. O rio dos avieiros, o cemitério do poeta Luís de Montalvor, a piscina do homem-peixe, Baptista Pereira, que lhe proporcionou o treino para vencer a travessia do Canal da Mancha, em 1954.
Um nunca acabar, este Tejo. Luís Ribeiro ressuscita momentos altos “nas águas de sangue azul”, como a chegada de Maria Francisca pelo casamento com Afonso VI, e a posterior partida do rei para um desterro nos Açores, por declarada impotência e impossibilidade de dar sucessor ao trono. Maria Francisca ficou e casou-se com o cunhado, Pedro II.
Para fechar esta referência, uma breve citação de Alberto Caeiro: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ (…) O rio da minha aldeia não faz pensar em nada/quem está ao pé dele está só ao pé dele.” Pelo contrário, “pelo Tejo vai-se para o Mundo./Para além do Tejo há América.”
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Luís Ribeiro
Histórias do Tejo
A Esfera dos Livros, 19€

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(C) Vieira da Silva

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