Ricardo Gil Soeiro | Da Vida das Marionetas


1 - O que representa, no contexto da sua obra, o livro Da vida das marionetas?
R – É um livro bastante importante, uma vez que constitui o primeiro volume de uma tetralogia que, neste momento, estou a escrever.

2 - Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R – Este livro, centrando-se sobre a figura da marioneta, visa interrogar poeticamente a problemática da animação do corpo inanimado e as respectivas implicações na representação da ipseidade e da alteridade. Cada poema encena um aspecto das múltiplas “vidas” da marioneta, inspirando-se para o efeito em diversas obras de referência (na literatura, no cinema, na filosofia, na música e na pintura) que reflectiram sobre a ressonância simbólica da marioneta e com as quais o presente volume enceta um fértil diálogo: de Hoffmann a Pizarnik, de Valéry a Rilke, de Philip Roth a Landolfi, passando pela filosofia de Kleist, pela música de Gounod, pela pintura de Paul Klee e de Giorgio de Chirico e pelas obras fílmicas de Bergman, Kitano ou Klarlund.

3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Neste momento estou a escrever a tetralogia que mencionei anteriormente: “Tetralogia de uma Poética Palimpséstica”. É um trabalho ambicioso que procura dar eco à reflexão que tenho desenvolvido em torno da noção de palimpsesto e da palavra poética. A minha poesia não é senão isso: um tacteante canto sobre os seres e as palavras que os soletram. E é a partir desse intervalo inominável entre objecto e palavra que emerge uma pintura de sombreados, interrogando as intermitências do mistério surdo da linguagem. Procuro entrelaçar o júbilo da existência com a incompulsável dor que a morte significa: e, assim, os meus poemas vão hesitando entre o fulgor da plenitude poética e a melancolia de nos sabermos enigmas indizíveis. Trata-se de um labor inquieto que se plasma em múltiplas máscaras e metamorfoses: alfabetos de astros que se cruzam com caligrafias do espanto, inusitadas paisagens povoadas por marionetas de papel e anjos necessários, um teatro de sombras onde desfilam incontáveis Bartlebys que, obsessivamente, se declaram desistentes, ao mesmo tempo que continuam a alimentar a ilusão de recriar uma rosa pela palavra.
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Ricardo Gil Soeiro
Da Vida das Marionetas [Para uma Dramaturgia do Corpo Inanimado]
Edições Húmus

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